Dou por mim todos os dias a ouvir, mais infetados, mais mortos mais isto e mais aquilo… O povo tem de perceber de uma vez por todas que temos de ficar em casa até esta porcaria desaparecer.

Estava habituado ao ritmo de estar a trabalhar com dois ou três restaurantes, ir visitar e conhecer outros, juntar uma malta cozinheira amiga e trazermos produtos de pequenos produtores, outros traziam vinho, fazíamos o petisco e ali criava-se uma tertúlia culinária do melhor que há e onde aprendíamos muito com trocas de experiências.

Dois dos três grandes prazeres da vida são comer e beber, e é disto que o nacional e o estrangeiro gostam: sentar-se a uma mesa, comer um bom prato tradicional ou ter a experiência de um menu de degustação de autor, provar vinhos e criar uma envolvência de família e de à vontade; é nisto que nós, portugueses, somos bons! Muito bons… temos a melhor gastronomia e o melhor peixe do mundo!

Precisamos de trabalhar, o estado não pode demorar e  dificultar tanto medidas no nosso sector. Quanto mais cedo for tudo resolvido, mais cedo voltamos ao trabalho (atenção que não estou a dizer que somos menos ou mais do que os outros), mas somos uma boa parcela e proporcionamos uma grande experiência a todos. Tendo nós uma boa parte do PIB porque é que isto já não está resolvido desde o mês passado? É preciso morrer gente e espalhar o vírus para fecharmos fronteiras e tomarmos medidas sérias?

Há falta capacidade de antecipação, falta de experiência.

Eu cá vou estudando, estou agora debruçado sobre o livro do Eleven Madison Park (está qualquer coisa) e em casa vou testando, fazendo comida de conforto e outras experiências malucas, estou a investir em mim, ao mesmo tempo que cozinho e bebo um copo de vinho penso “será que é desta que as condições na hotelaria vão ser justas ? Ou vamos continuar com precariedade? Sinto que muitos restaurantes vão fechar, e vamos voltar ao mesmo de antigamente… queres 1300 euros? Tenho aqui um que aceita 900 e faz mais horas e feriados e não lhe pago…”

Sou totalmente defensor da justiça e bato palmas ao Nuno Diniz, e acho que é este o caminho que temos de seguir. Esperamos, todos, que quem for dedicado e realmente melhor, que seja mais bem pago e tenha melhores condições por isso.

Espero que, depois disto, tudo melhore: desde o civismo, a humanidade e a hotelaria, no geral. Espero que melhorem, também, as condições na Hotelaria e Turismo, porque eu, assim como outros, trabalhamos, estudamos e investimos para sermos melhores e termos melhores condições e notoriedade, por consequência, não para sermos cada vez mais explorados.

Um dos meus chefes favoritos, Santi Santamaria, um grande cozinheiro, que 99% da preocupação dele era o sabor (o que, na minha opinião, hoje em dia o guia Michelin está cada vez mais ridículo), que começou por ser vendedor de automóveis, disse: “Por más libros que almacenemos en nuestro cerebro o facturas de grandes restaurantes que vayamos acumulando, no conseguiremos alcanzar lo esencial de la belleza de la vida si no nos despojamos de la arrogancia y la frivolidad”.

Transparece um bocado do panorama actual.

Tenho em consideração duas pessoas que têm a intenção de melhorar, mostrar ainda mais Portugal ao mundo e que lutam pela nossa classe, Nuno Diniz e Paulo Amado, um grande abraço e continuem nesta luta.

Estudem, e cozinhem bem!