Hoje acordei tarde.
É domingo.
Tem sido sempre domingo, nos últimos dias.
Já odiei domingos, aqueles que vinham antes das segundas, mas desde há uns anos para cá que os adoro: acordar tarde, todos em casa, tomar dois cafés sozinha na rua, ler, almoço sem horário, copo com irmã ao final da tarde, jantar de família com filhos, pais, irmãos, o meu amor, a certeza de que estamos vivos e de que somos amados, a preparação para a segunda, o sofá e a televisão, cinco minutos até adormecer.
Gosto de domingos desde que trabalho em restauração. Escolhi o domingo porque queria ultrapassar a angústia que este dia me provocava quando não sabia o que era ter um restaurante. Podia ter escolhido a segunda, a terça, ou a quarta, nunca a sexta, ou sábado. Ao domingo à noite os próprios restaurantes estão meio cheios de uma, também, espécie de paz. Para quem come e para quem serve. Não há, por norma, conjuntos de pessoas barulhentas a começar uma noite de diversão, não há grupos de trabalho onde a formalidade impera, não há aniversários nem pedidos de casamento e, muito importante, não há despedidas de solteiro. As portas fecham mais cedo, porque as pessoas se estão a preparar para a semana que se segue. Os copeiros, os cozinheiros, os empregados de mesa, todos tem ainda um pouco de tempo para o sofá, antes da cama. Ou tempo para a cama, no sofá.
Aos domingos não quero restaurantes. Nem os meus, nem os dos outros, quero a comida do meu pai. Os assados no forno. A massa com carne.
Aos domingos há uma espécie de paz, um não servir os outros, um servir-nos a nós próprios e aos nossos.
Desde que a nossa vida se transformou em ficção tenho feito todos os esforços para não voltar a sentir a angústia do domingo. Estes domingos repetidos, agora sem o meu momento de café na rua, sem o copo ao final da tarde, sem o jantar em casa dos pais, sem as conversas com os irmãos. Sem o sabor da massa com carne do pai.
A verdade é que desde que todos os dias são domingo, desejo que voltem a existir segundas, terças, quartas, quintas e sobretudo sextas e sábados, salas de comida cheias de pessoas a falar alto e a rir, parabéns a você nesta data querida, mas acima de tudo…“lodo”. Do forte e do bom, como só conhece quem passa os dias da semana a servir momentos de refeição aos outros, para poder descansar no seu domingo, seja este que dia da semana for.
