O mundo acordou com as ruas desertas e com a população em casa, de quarenta forçada ou voluntária, pois a humanidade trava uma batalha que nunca imaginou ser possível existir. Para muitos de nós quase parece o cenário de um guião de Scott Z. Burns e que brevemente isto vai terminar, que não passou de um pesadelo. 

A área de hotelaria e restauração é das mais afectadas, pois vive de pessoas e para as pessoas, com as mesmas de quarentena não existe negócio. Aliado a isto temos um sector com alguma debilidade, nomeadamente para os pequenos grupos e restaurantes. A carga fiscal é imensa, o lay off simplificado não contém medidas claras de ajuda, prevê-se que para superar esta crise vão ser necessárias medidas mais amplas e que efetivamente apoiem o sector. Caso contrário o desemprego vai disparar, o que prejudica ainda mais a economia do país neste momento. 

Verifica-se que a humanidade mantém sempre a esperança, apesar das dificuldades, conseguimos priorizar: ter saúde, estar com os nossos, cozinhar, rir, dançar, cantar, ler são actividades que normalmente esquecemos no rebuliço do dia-a-dia e agora, de rompante, temos tempo para todas elas. Temos tempo para reflectir. 

Nesta reflexão deverá existir uma questão: “ Como chegámos a isto?”. 

Trabalho na área da alimentação e, por esse facto, o meu pensamento direciona-se sempre para esta temática. Começo por analisar alguns factos. 

Em 1950 a população mundial era de 2,4 mil milhões, em 2015 correspondia a 7,3 mil milhões, em 2050 a ONU estima que será de 9,7 mil milhões e em 2100 será de aproximadamente 11,2 mil milhões, altura em que foi projetado que possa começar-se a atingir um patamar e estabilização do crescimento da população mundial. 

Como se alimenta a humanidade? 

A indústria alimentar está dependente dos recursos naturais do planeta e de 1950 até aos nossos dias o crescimento populacional foi abrupto, produzir alimentos para uma população em constante crescimento, obriga a industria a ocupar cada vez mais terrenos no planeta, que estavam reservados à vida selvagem. Sem pensar nas consequências ou sem sentir directamente os efeitos desta conduta, o homem continua a desbravar. Consumimos muita água do planeta, poluímos os solos e lençóis freáticos, emitimos CO2, mas na prateleira do hipermercado não falta nada. Os hábitos alimentares também mudaram radicalmente, pois a indústria alimentar consegue produzir quantidades, até excedentes, de produtos nobres para comercializar. Se recuarmos 50 anos, o consumo de carne, ou peixe era duas vezes por semana em média, a matança do porco fornecia carne para um ano. Hoje consumimos proteína animal no mínimo 14 vezes por semana, duas vezes por dia. 

Há quatro consequências diretas da produção de carne de vaca à escala global: a superfície ocupada pelas pastagens (para que uma vaca produza um quilo de proteína, tem de consumir entre 10 a 16 quilos de cereais); a água consumida pelos animais (para ter um quilo de carne, o consumo é de 15 mil litros de água) e pelo processo de produção; os gases de efeito estufa gerados pela flatulência do gado (segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura equivalem a 14,5% do que é lançado para a atmosfera); e a energia necessária para alimentar a indústria. 

Como se pode perceber pelos números referidos dentro em breve será insustentável continuarmos neste sentido, situações como aquela em que estamos são uma oportunidade de repensar tudo isto, para evitar problemas futuros tão disruptivos como o atual. 

A ciência está ciente destes problemas que a humanidade enfrenta e começa a estudar soluções. Vítor Espírito Santo, Director de Agricultura Celular da empresa Just, apresentou em Portugal recentemente o Just Egg – uma alternativa vegetal ao ovo. Produzido a partir da proteína do feijão mungo, o objetivo é que confira aos preparados um sabor e textura idênticos aos do ovo, assim como boas características nutricionais. Note-se, contudo, que sendo a fonte proteica diferente, o teor de aminoácidos difere também, mas o valor em percentual mantém-se; exclui-se a gordura saturada e privilegia-se a gordura monoinsaturada. Os valores de ferro e vitamina A são menores ou inexistentes.

A produção do Just Egg comparativamente à do Ovo normal reduz a pegada ambiental significativamente, ou seja, consome apenas 2% da água necessária para produzir quantidade idêntica do ovo normal, ocupa 14% do solo e reduz a pegada de carbono para 7%. Neste estudo de impacto ambiental a empresa dos EUA não contempla a embalagem de plástico e o transporte do feijão produzido na Ásia, mas para reduzir custos e impacto ambiental a empresa começa a criar parcerias em todo o mundo para garantir a produção de feijão e desta forma reduzir distâncias. Este produto foi desenvolvido com apoio de cozinheiros que pertencem à equipa e é comercializado nos EUA, Canadá e Ásia.

A empresa Just também é uma das várias empresas a nível mundial a trabalhar, desde 2011, na produção de carne cultivada, um produto produzido em laboratório a partir de células dos animais, dispensando o abate de vacas, porcos ou galinhas.

(não perca a continuação deste artigo amanhã)