Acordo com o poema do Ruy Belo na cabeça, ‘O Portugal Futuro’. Noutros dias acordava com uma frase do Sérgio Cambas, restaurador do Porto, que disse numa entrevista que fez comigo e com o Paulo Amado. Sobre o turismo dizia ele, estamos a viver uma oportunidade e não uma garantia. Agora, com tudo isto à nossa volta, passa-se exactamente a mesma coisa, vivemos uma oportunidade, cabe-nos a nós saber em que chão vamos edificar Portugal, e como.
O poema diz tudo:
“O Portugal Futuro
O portugal futuro é um país
aonde o puro pássaro é possível
e sobre o leito negro do asfalto da estrada
as profundas crianças desenharão a giz
esse peixe da infância que vem na enxurrada
e me parece que se chama sável
Mas desenhem elas o que desenharem
é essa a forma do meu país
e chamem elas o que lhe chamarem
portugal será e lá serei feliz
Poderá ser pequeno como este
ter a oeste o mar e a espanha a leste
tudo nele será novo desde os ramos à raiz
À sombra dos plátanos as crianças dançarão
e na avenida que houver à beira-mar
pode o tempo mudar será verão
Gostaria de ouvir as horas do relógio da matriz
mas isso era o passado e podia ser duro
edificar sobre ele o portugal futuro”
Ruy Belo, in ‘Homem de Palavra[s]’
Agora é connosco, vivemos esta oportunidade única de tudo mudar, de podermos ser outras coisas, de imaginarmos vidas melhores, mais calmas, mais pensadas, mais profundas. Sem termos de correr à procura de coisas só para nós. Já me debati com tantas dúvidas que prefiro esta sensação de que posso ser um dos arquitectos ideólogos de um país diferente.
