Somos três cá em casa. Quatro, há pouco mais de um mês, com a chegada do Biggie, o meu cachorro beagle. Nunca tinha estado tanto tempo em casa. O meu horário de cozinheiro significa que muitas vezes chego a casa quando já todos dormem e há dias em que praticamente não nos cruzamos. Agora, estamos todos juntos há muitos dias. E se há momentos em que damos por nós a enlouquecer e a agradecer por termos divisões suficientes para guardar a distância social em casa, também há momentos muito bons.
Como esta manhã, quando abro os olhos e vejo o Biggie abanar a cauda enquanto me lambe a cara e os braços, a pular para me arrancar da cama e me convencer a ir para o jardim brincar com ele.
Não há dia em que não pense no fim do mês. À medida que se aproxima, penso nos ordenados para pagar, na facturação quase inexistente em Março, nas pessoas que fazem parte da minha equipa e por quem sou responsável, nos outros todos que sei que neste momento lutam por sobreviver. É difícil manter o ânimo. Tento, mas a cada nova frase que leio em decretos-lei, o sorriso desaparece. Quanto tempo vai durar isto?
O tempo passa devagar. Pego na lista que juntei no início de tudo isto, com tarefas que pretendo aproveitar para fazer durante este período de isolamento. Há um frigorífico para pintar, um estore para arranjar, uma máquina de lavar que precisa de manutenção, a horta que tem de ser cuidada. Decido que hoje é dia de tirar o estore da lista.
É a cozinhar, mesmo assim, que passo a maior parte do dia. De todos os dias. Faço o almoço, o jantar, vou pensando em receitas para levar aos meus clientes quando tudo voltar à normalidade.
Só os passeios com o Biggie impedem que termine o isolamento com mais vinte quilos! Caminhamos por cinco quilómetros depois de almoço e não sei qual de nós fica mais feliz com este passeio higiénico!
À tarde, sento-me ao computador. Tenho este diário para escrever, receitas para enviar, contas por pagar. Abro a minha conta online e vejo vários levantamentos que não fiz. Ligo para o banco, 45 minutos ao telefone, 3 cartões bloqueados, muitas dores de cabeça. O covid-19 passa para segundo plano no meu pensamento pela primeira vez no dia.
Corro para a polícia a apresentar queixa, como me indicaram. Há seis polícias lá dentro e não deixam ninguém entrar. O corona volta a ocupar-me a cabeça, ao frio, enquanto ao longo de uma hora grito para dentro da esquadra as indicações que me vão pedindo. Parece filme mas está a acontecer comigo. Todos naquela rua ficam a saber o meu NIF, a minha morada e os detalhes do que me aconteceu. Passam-me o relatório no fim por uma frincha da porta, para assinar, mantendo a devida distância. Imagino como seria se tossisse naquele momento. Felizmente, não acontece.
Chego a casa, finalmente, para encontrar um caril incrível e um arroz de cardamomo que me sabem a casa e me devolvem parte da voz.
O Biggie já exige que o volte a passear e lá vou, com o meu novo melhor amigo, em busca dos caminhos que ainda não descobrimos nos arredores.
Volto ao computador. São 00:09. Percebo que já estou no meu 14 dia de isolamento e estou mais um dia atrasado na entrega do diário que já tinha prometido há dias. Até podia gritar com a frustração mas não tenho voz. E sejamos honestos: ainda alguém sabe que dia é sem olhar para o calendário?
Meus amigos não percam o próximo episódio porque eu também não.
