Ai que engraçado que esteja neste fado! Ainda que há pouco não tenha estado muito melhor. Porque depois de tanto tempo ainda não me consigo ressentir. Tantos dias neste pranto que só eu conheço. E conheço tantos.
Tenho joias tão lindas, tão belas e das quais gosto tanto que nem sei bem. Mas vou-me esquecendo porque o tempo não me ajuda, até que depois há tantas outras que me agradam tanto. Tanto que até nem me lembro.
Mas muitas das minhas são tão antigas que me parecem velhas e gastas; que as cuidei tão mal que até o brilho se foi. Ou eu deixei de o conseguir ver. E tantas vezes lutei por elas tanto tempo. Como é possível?
Ter e deixar. Amar e esquecer? É engraçado!
Tempos em que a beleza era tão evidente e luzia em todos os olhos que a olhavam. Tão brilhante que cegava todos os que levantavam os olhos para se perder e se encontrar neste clarão que os alumiava. Tantos e tantos.
Quem não sentiu já a beleza do que já não há e a saudade do que já sentiu?
Ai que engraçado! Que tanto se sente do que já deixou de sentir! Mas que ainda já se tinha esquecido.
Esta minha joia rara, tão velha que já me pareceu vulgar. Mas hoje não! É linda, mas hoje não a posso pôr, pois à rua não irei! Amanhã talvez.
Hoje é a mais bela e formosa de todas as jóias, e eu sabia. Esqueci-me um bocadinho. Quero dizer, não me esqueci. Só não me lembrei um bocadinho.
Ainda que há pouco não valia mais que a outra que tinha visto numa montra luminosa. Não era a minha, mas brilhava muito. Tem uma alma própria e única e faz vibrar como mais nenhuma para mim e o engraçado é que já me disseram que não era a mais bonita. Que havia outras mais belas.
Agora a sério, eu sei que é. Já o é desde o tempo que deixei de ser cego. Porque olhei com os olhos de quem vê e com o coração de quem sente, e não há outra como esta. É a minha e tem tantos por maiores que ainda que haja maiores nunca serão tão grandes.
Foi primeira e imperfeita como poucas, foi perfeita e última como nenhuma outra, e é minha!
Que engraçado que depois dos brilhos todos consigamos ver no escuro, no fado e amanhã talvez possamos todos sair com a joia ao peito!
Mas depois de tanto menos merecer e tanto de pouco ser ainda cá estarmos sem mácula?
Claro que sim. Simplesmente. Com a força do que é muito mais que uma joia. Com a força de muitos que já passaram e os que virão. Não será novo mas importa mais que tudo isso.
É e será sem mais que isso e por mais que tudo, com ou sem desgraça. Mas depois de tanto menos merecer e tanto de pouco ser ainda cá estarmos sem mácula?
Claro que sim. Simplesmente. Com a força do que é muito mais que uma joia. Com a força de muitos que já passaram e os que virão. Não será novo mas importa mais que tudo isso.
É e será sem mais que isso e por mais que tudo, com ou sem desgraça, pois é a nossa!
