Faz hoje 21 dias que cheguei a Portugal. Quase tantos dias quantos os que tive lá fora. Poderia ter estado mais tempo, mas a pandemia tirou-me essa oportunidade. 
Sou cozinheira há uns anos e, neste meu curto caminho profissional, sempre trabalhei em Portugal. O “ir para fora” nunca foi para mim, pelos amigos, pela família e pelo meu País. Sempre defendi que tínhamos de fazer mais cá dentro. 
Mas, apesar de não querer ir trabalhar para fora, sempre tive a curiosidade de conhecer o desconhecido, de aprender técnicas novas, de conhecer outras mentalidades e diversos pontos de vista. 
Assim surgiu a oportunidade de poder fazer uma temporada fora de Portugal, e depois de uma longa procura acabei por ser aceite no  restaurante Jordnaer, em Gentofte, na Dinamarca. 
Embarquei em meados de Fevereiro e ainda esta pandemia não era conhecida como tal. Pouco se sabia na Europa o que era realmente este vírus e quais as suas consequências. A vida decorria normalmente e um dia era só mais um dia. 
Passado umas horas de chegar a solo dinamarquês, o restaurante que tinha escolhido ganhara a segunda Estrela Michelan. No meio de tanta alegria, celebração e nervosismo, mal sabíamos nós o que estaria para vir.
As semanas passavam nesta nova rotina e, a cada dia que passava, aprendia sempre mais alguma coisa e ganhava sempre mais uma responsabilidade. Já fazia parte desta nova família; o que ao início estranhava agora agarrava de unhas e dentes. Todos os dias trabalhávamos para ser mais e para alcançar mais. A cidade estranha e escura  já começava a ser uma cidade conhecida e cheia de luz.
E, sem aviso prévio, chegou a notícia, o novo vírus que com o tempo tinha vindo aos poucos a ganhar território por todo o mundo era agora considerado pela OMS uma “pandemia mundial”.
Dois dias depois deste anúncio, enquanto as famílias dinamarquesas jantavam como todas as outras noites, a primeira ministra falava ao país sobre as novas medidas de resposta à pandemia: escolas fechadas, hotéis transformados em hospitais, teletrabalho, entre outras medidas. De um momento para o outro o comboio que todas as manhãs transportava centenas de pessoas agora transportava à volta de uma dezena por carruagem. As poucas pessoas que continuavam nas ruas a fazer a sua vida normal agora usavam máscaras e luvas entre os olhares desconfiados. Um restaurante que outrora estava cheio todos os dias, agora começava a ter cancelamentos e cada vez menos clientes. 
Era mais um final de semana no restaurante e, durante o serviço do jantar, o chefe veio ter comigo para me alertar das últimas notícias: a fronteira da Dinamarca iria fechar no dia seguinte ao meio dia e qualquer pessoa que não fosse cidadão dinamarquês arriscava-se a não poder entrar nem sair do país. Entre o choque, o pânico e a adrenalina do serviço, fui obrigada a remarcar toda a minha vida, caso contrário ficaria presa na fronteira.  Conseguiria voltar a casa? No meio de tanto nervosismo, uma frase foi dita  “Joana, relax. Don’t worry. No matter what, we will make sure you get home to your family safe and sound.”  Consequentemente, despedi-me com gratidão por toda a aprendizagem e experiência ali vivida e a esperança de ali voltar. Não era este o último dia de estágio que tinha planeado… Seguiram-se as malas feitas à pressa, uma noite mal dormida no aeroporto e um nascer do sol visto do avião a caminho de Portugal. Tal como me fora prometido, regressei a casa sã e salva. Para trás, ficou uma equipa dedicada e honesta que deu tudo o que podia para chegar onde estavam, um conjunto de pessoas que tal como muitos de nós vive para a sua carreira e que, apesar de tudo, continuaram e continuarão a lutar, enquanto lhes for permitido, sem saber o que o futuro reserva. 
O Covid-19 ou o Coronavirus, como lhe quiserem chamar, tirou oportunidades a muitas pessoas. Mas cabe a cada um de nós mudarmos as nossas atitudes e práticas face a esta nova realidade que chegou para ficar. Porque o dia de hoje será diferente do amanhã.