No meio do ódio e do medo, diluem-se pedidos de ajuda, gritos de desespero e fotografias de uma realidade que não é a nossa e que pensamos que só toca os outros.

Habituámo-nos a ver os outros a pedir ajuda, do cimo do nosso pedestal, sempre os outros.

Nunca pensámos ser os outros, porque só acontece aos outros, porque a culpa dos outros em o ser é dos mesmos e a nós passa-nos ao lado, não nos toca, só acontece aos outros.

De repente tiram-te o tapete, os teus filhos já não têm o que comer e não sabes sequer se chegas ao fim do dia, quanto mais ao fim do mês.

Ligas o noticiário e discute-se o futuro, a economia e a saúde e, de repente, passas a ser o rodapé que só calhava aos outros, já não interessas.

Percebes que afinal não acontece só aos outros, que a vida em sociedade não é a tua bolha em que pensas viver, que nenhum homem é uma ilha, que todos precisamos de ajuda em alguma altura da vida porque pedir ajuda não é vergonha, vergonha é lucrar com a ajuda ao próximo.

E espero que quando te conseguires colocar de pé outra vez, aprendas a dar a mão sem contrapartida e a perceber que vale a pena ajudar sem juízos e preconceitos porque os outros somos nós e nós somos os outros.

O que o vírus deixar, a fome leva…