Seria a pergunta que mais ouvia dos outros e de mim. Estaria a fazer a melhor opção? Estaria eu no meu perfeito juízo, com 35 anos, estabelecido no meu país, e prestes a mudar a minha vida do avesso?
Escrevo agora, passado um ano e poucos meses sobre o que aconteceu, retornando ao primeiro local de trabalho que me acolheu. Pois é, venci na toca das feras e na dos leões – com todo o respeito, que, sobretudo aqui, se tem de ter. Pena que, pelo que conheço, seja só nesta geografia tão exemplar.
RÁPIDO, LIMPO, IGUAL. São as palavras chave para se vencer no Japão – e em qualquer lado que dignifique a profissão. Sim, são 12, 13, 15… 18 horas de trabalho diário de puro profissionalismo, num ambiente onde as pessoas se divertem a trabalhar, e onde também há espaço para a dita ”galhofa” (a trabalhar). Sim, os tempos mudaram. Por aqui nem sempre foi assim. Para o que não há espaço? Falta de respeito pelo outro, desperdício alimentar e de tempo, falta de pontualidade (senão vais à ‘vending machine’ buscar cafés para todos, ficas a afiar facas, podes desistir…). Estes são só alguns exemplos.
“Nunca desistas”, dizia o meu chefe Kinya Okubo enquanto eu levantava, pela nona vez, uma barra com 47 kg depois de 15 horas de trabalho intenso, numa das nossas sessões semanais de “levantar ferro” à porta do dormitório, com temperaturas negativas. Muito diferente do ‘scroll up and down’ e dos ‘squats’ de polegar no telemóvel, que é o que mais se vê hoje em dia, sobretudo nos mais novos.
Segredo: tentar o impossível para que o quase possível seja mais fácil e consigas superar as expectativas, tuas e as que os outros têm de ti.
Dificuldades? Podemos enumerar duas por agora.
A barreira linguística. Sem vencer esta, estás lixado. É um país onde cerca de 80% da população não fala inglês. Podes esquecer assumires tarefas de responsabilidade sem falares a língua. Felizmente, já vinha com bagagem para esta dificuldade e, passado um ano, até ao calão vou, só para pôr a cozinha toda a rir – que é um dos meus atributos, quem trabalhou comigo sabe como é.
O fator ‘gaijin’ (estrangeiro). Com este ainda tenho problemas. Isto depende, sobretudo, da média de idades da equipa que integras. A mentalidade antiga ainda teima em ver na tua testa a frase: “Não sabe fazer”. O que pode levar a alguma frustração e insónias. O que não acontece em equipas mais jovens, em que a mentalidade é mais aberta.
Neste momento encontro-me a trabalhar no Ryokan Kozantei Ubuya. Diga-se, sem exageros, o melhor da zona de Yamanashi. Sempre com ocupação anual bem acima da média, com vista bastante privilegiada para o famoso Monte Fuji – que tenho o prazer de vislumbrar todos os dias e que, de certa forma, e de alguma maneira, me tem dado ajuda e força para superar as dificuldades e as saudades do meu país e dos meus familiares e amigos.
*Ricardo Komori trabalha no restaurante do hotel Kozantei Ubuya, em Yamanashi, Japão.
