A minha minha viagem começou em Goa, paragem que para um português é claramente obrigatória. O facto da cultura lusa se encontrar tão bem preservada num país tão longínquo e sentir que os goeses têm mesmo um carinho especial pelos portugueses não podia deixar de gerar um grande sentimento de boas-vindas. Esta foi a primeira viagem que fiz de mochila às costas. O que procurava era satisfazer a minha vontade de conhecer e de experimentar novos sabores, aromas e experiências culturais. Por isso, o que importava mesmo era ir com todos os sentidos bem despertos e em boa companhia. A melhor companhia do mundo para esta viagem só podia ser mesmo a minha grande amiga Susana Teixeira, igualmente foodie e antiga colega da Escola Superior de Hotelaria e Turismo do Estoril. Ela chegou vinda de Londres, na Europa, e eu de Díli, no sudeste asiático – e a uma distância de 45 minutos da Austrália. Encontrámo-nos em Goa que fica a meio caminho dos dois mundos tão diferentes de onde partimos para esta viagem!
Ficámos alojados em casa da família Teixeira (não, não são da família da Susana), onde a querida Mavey – que é mãe do nosso amigo Beavan – não nos deixou ficar noutro lugar que não a sua casa. O pequeno altar com um crucifixo, uma estátua da Nossa Sr.ª de Fátima e uma bíblia (em língua portuguesa), aberta sobre o pequeno altar, denunciou a importante influência religiosa que os portugueses exerceram nestas paragens ao longo de séculos, e que parece perdurar.
Ao raiar de cada novo dia, a querida Mavey organizou na sua casa os pequenos-almoços que, desde o primeiro dia, foram autênticos banquetes e onde não faltaram as tradicionais chamuças ou samosas (como lá lhes chamam) ligeiramente picantes, sem muitas especiarias, mas ricas em legumes, de entre os quais se destacavam as ervilhas que lhes confere uma cremosidade inesperada e muito agradável. Não faltaram também o famoso pão naan, mesmo acabadinho de fazer, a bebinca (sobremesa tradicional de ovo e côco, em camadas) e o indispensável masala chai, que é um chá de especiarias (cardamomo, canela, gengibre, cravinho, noz-moscada, entre outros), servido com leite.
Ao raiar de cada novo dia, a querida Mavey organizou na sua casa os pequenos-almoços que, desde o primeiro dia, foram autênticos banquetes e onde não faltaram as tradicionais chamuças
Com a Mavey fomos visitar as várias cidades e os monumentos emblemáticos do estado de Goa. Pudemos ver que muito do património que testemunha a presença dos portugueses nestas terras ao longo de vários séculos se mantém, ainda, bem presente e relativamente bem conservado. O que mais me surpreendeu, e que desconhecia por completo, era a existência de praias paradisíacas (Dona Paula, Canacona, Agonda, Cabo de Rama e a Majorda) que Goa detinha e que foram lugares fantásticos para um mergulho. Todos os dias almoçámos e jantámos fora de casa, com exceção do último dia da nossa estadia. Neste, a Mavey deixou-me entrar na cozinha da sua casa para aprender a fazer o seu xacuti (guisado rico em especiarias), cuja receita consta do meu livro ‘Sabores da Lusofonia’. Sempre a confecionei à moda moçambicana, para onde esta receita foi levada pela numerosa comunidade indiana há muito estabelecida neste país africano – banhado pelo Índico e onde o português também se faz ouvir.
No panorama da restauração, merecem especial destaque e referência os restaurantes Martins Corner e o Ritz Classin. No primeiro, destacaram-se os vários tipos de peixe grelhado com as diferentes masalas, o kulfi (um gelado indiano muito conhecido) e o melhor bebinca que provámos em toda a viagem. No segundo, fomos surpreendidos pelo thali que compreende várias iguarias da gastronomia goesa servidas num enorme prato metálico. Os aromas e os sabores ficarão seguramente marcados na nossa memória para sempre!
Um facto que considerámos muito curioso, por ser bem diferente da nossa realidade portuguesa, foi a menção de “prato não vegetariano” nos menus plenos de pratos vegetarianos.
Depois de Goa, seguimos para Nova Deli e ficámos em Paharganj, no casco histórico da cidade. Aqui explorámos a comida de rua e os mercados que, pela sua extensão, são impossíveis de visitar completamente. Nas ruas estreitas, onde o olhar prudente admitiria a possibilidade de circulação de uma pessoa de cada vez, fomos surpreendidos pelo mar de gente que, com equilíbrio, transporta à cabeça os mais variados produtos e objetos, num exercício que parece desafiar as mais elementares leis da física. Nestas ruas, marcadas por uma certa penumbra, fomos levados pelo olfato. Os cheiros intensos dos chás e das especiarias permitiram que descobríssemos lojas cujas fachadas e interiores exibem cores quentes e vivas.
Depois de várias horas percorrendo as ruas de Nova Deli, visitámos o restaurante Zabardast, em Connaught, na companhia do nosso amigo Mayank, onde apreciámos o Dahi Kebab que é uma especialidade do espaço, confecionado com paneer (um queijo fresco bastante consistente).
A experiência mais inesquecível que tivemos, durante a estadia nessa cidade foi a nossa participação nas cerimónias de um casamento tradicional indiano. Na memória ficará para sempre marcada a explosão de cores, aromas, sabores e alegria que sentimos. E que de certa forma nos transportou de volta para o imaginário do brilho e exotismo que desde a nossa infância sempre relacionámos com a Índia.
A experiência mais inesquecível que tivemos, durante a nossa estadia nessa cidade foi a nossa participação nas cerimónias de um casamento tradicional indiano.
A duas horas de distância da atual capital fica a cidade de Agra, antiga capital da Índia e que é mundialmente conhecida por nela se ter edificado o extraordinário Taj Mahal, edifício que celebra o amor eterno de um príncipe pela sua amada. A viagem até Agra serviu de pretexto perfeito para experimentarmos viajar nos também famosos comboios indianos, que recomendamos vivamente, já que ficámos positivamente surpreendidos pela saborosa refeição servida a bordo a todos os passageiros.
Durante a nossa estadia na antiga capital da Índia, tivemos oportunidade de visitar o restaurante Maya, no qual pudemos saborear o fantástico frango haryali tikka, confecionado com caju, espinafres, pasta de queijo e variadas especiarias, e servido com um tradicional naan de alho. Durante a sobremesa, pudemos apreciar umas belíssimas gulab jamun que são umas pequenas esferas, feitas a partir de leite em pó aromatizado com água de rosas e de especiarias, fritas e embebidas numa calda de açúcar.
A última etapa da nossa viagem levou-nos até Calcutá, cidade onde ainda se encontram bem presentes as marcas da presença secular dos britânicos e onde a intensidade e o aparente caos do trânsito não deixa ninguém indiferente. Sendo o epílogo da nossa viagem pela Índia, procurámos pelos famosos mithai que são pequenos bolinhos doces oferecidos das mais diversas formas, mas sempre com sabores delicados, com diferentes camadas, decorados com atenção para os pormenores e adornados com folhas de ouro e de prata. Encontrámo-los na conhecida pastelaria Balaram Mullick. Nesta, experimentámos os jaleebi que foram a forma mais simples de mithai que tivemos oportunidade de provar, sendo confecionados com farinha de grão-de-bico e açafrão; já nos bondi ke ladoo, também mithai, notou-se mais o sabor a leite e manteiga, apesar de ter sido sujeito á fritura e de serem embebidos em calda de açúcar; os barfi foram a forma de mithai mais requintada que tive oportunidade de experimentar e ofereceram-se-me com sabores a caju, a amêndoa e a pistacho.
Esta foi seguramente a melhor forma de terminar esta nossa aventura pela Índia, onde seguramente regressarei porque ainda há muito a descobrir nesta cultura, tão misteriosa quanto sedutora para qualquer europeu.



