A Galeria Fernando Santos organizou uma exposição que junta arte e gastronomia, criando uma ligação pouco vista no circuito nacional. Fuck Art, Let’s Eat reuniu 30 artistas e um igual número de abordagens, abrindo pistas para o potencial deste universo.

A ligação entre a arte e a gastronomia existe desde sempre. As pinturas rupestres, as naturezas mortas e toda uma série de outras criações têm desenhado um trilho de migalhas que os mais gulosos já tiveram, com certeza, o prazer de encontrar. No entanto, seria perigoso confundir o trilho com o destino e considerar as migalhas a própria arte. Há, de facto, quem as espalhe no prato com um sentido estético impressionante, mas daí a ter-se uma manifestação artística vai um grande salto.

Na Documenta de 2007 Ferran Adrià foi convidado a mostrar o seu trabalho ao lado dos mais prestigiados artistas plásticos do mundo. Houve logo quem esfregasse as mãos antecipando a polémica, mas o chefe não caiu na esparrela e optou por oferecer aos visitantes dessa mostra umas refeições no elBulli, levando-os da Alemanha até Espanha. A terra a quem a trabalha, parecia dizer Adrià, evitando ocupar o lugar dos artistas.

Vem isto a propósito da exposição Fuck Art, Let’s Eat, organizada pela Galeria Fernando Santos. Pode parecer uma iniciativa surpreendente, ou até inusitada, mas há uma razão muito lógica para a sua existência: marca o terceiro aniversário do Oficina, um projecto cultural criado por Fernando Santos e que ligou a arte e a gastronomia. Apesar de o projecto estar entretanto suspenso, funcionando o espaço apenas como restaurante à data deste texto, a exposição foi na mesma inaugurada, convocando 30 artistas com obras em torno da comida. Responderam à chamada figuras tão conhecidas como Gerardo Burmester, Joana Vasconcelos, João Louro, Julião Sarmento, Miguel Palma, Nikias Skapinakis e Pedro Cabrita Reis, mas também foram convidados nomes em ascensão, como Avelino Sá, Beatriz Albuquerque, Joana Rêgo e Pedro Valdez Cardoso, por exemplo, sem esquecer o autor da frase que dá título à exposição, Filipe Marques.

Ao contar com artistas de lugares, gerações e linguagens tão diferentes, é natural que tenham surgido abordagens bastante distintas. Alguns seguiram uma via literal, outros optaram por esconder as pistas, mas em todos houve uma real transposição do seu universo artístico para o campo gastronómico. Para acrescentar mais uma camada a este mil-folhas cultural, na inauguração foram servidos 30 pratos e 30 vinhos inspirados nas obras da exposição, gerando um circuito de estímulos que procurou aumentar a percepção dessas peças. Perante este mosaico, vem à memória o filósofo italiano Nicola Perullo, quando este afirmou que para a cozinha ser arte, ter-se-á de pensar na arte como cozinha. A ser assim, esta exposição pode ser considerada um festim culinário. Muda apenas o aparelho digestivo.