Já conhecia e recomendo muito os brancos e rosés da casa [Quinta do Ventozelo], e então provei dois novos tintos estremes: um de Tinta Roriz (ou Aragonez, ou Tempranillo) e outro de Tinta Amarela (ou Trincadeira). Ambas são castas fora de moda, algo mal-amadas.

Gosto muito do trabalho que a Porto Gran Cruz está a fazer na Quinta do Ventozelo. Falo de dois gigantes adormecidos. A Porto Cruz é uma das Big-5 do Vinho do Porto (junto com a Sogrape, a Symington, a Fladgate e a Sogevinus. Um minuto de Google mostra que as marcas destes produtores são as mais prestigiadas e entusiasmantes no universo da Porto DOC). Mas a Gran Cruz, pertença da multinacional francesa La Martiniquaise, não tem marcas do estatuto dos outros quatro, tendo baseado a sua dimensão no que foi durante muitos anos o maior mercado para Vinho do Porto: a França, um mercado de grande volume mas preços médios baixos. O trabalho de Jorge Dias à frente da Porto Cruz tem por isso mais mérito. Desde 2009, Dias tem vindo a fazer crescer a empresa em termos do valor das suas vendas, principalmente através de um importante aumento da integração vertical, com a compra de quintas, marcas e construção de adegas modernas no Vale do Douro (a montante em termos de produção), mas também com o desenvolvimento de uma frente turística na cidade do Porto, impressionando os clientes finais e turistas pela modernidade e bom gosto, e assim dando mais sustentabilidade ao prestígio aumentado das marcas (além da Porto Cruz tem a Dalva e a Vale de S. Martinho). Além disto, é notória a melhoria de qualidade e aumento da ambição dos vinhos da casa.

A compra da Quinta do Ventozelo em 2015 foi um desses movimentos estratégicos. Com 400 hectares situados junto ao Pinhão, é uma das quintas emblemáticas do Douro que tardava em mostrar o seu potencial, tendo inclusive sido notícia por uma venda abortada há alguns anos. Parte dos 200 hectares de vinhas da quinta estão a uma altitude que chega a 600 metros, o que as torna mais adaptadas para vinhos DOC Douro, já que a altitude oferece um amadurecimento mais lento que preserva os preciosos ácidos naturais da fruta e dá mais equilíbrio e leveza aos vinhos. O elegante design dos rótulos desta marca adiciona à extraordinária renovação das suas velhas vinhas. Parecem agora um magnífico jardim, oferecendo ao passante na mítica estrada EN222, aqui entre as Bateiras e a Ervedosa um espectáculo de bom-gosto e amor pela tradição e pela Natureza.

Já conhecia e recomendo muito os brancos e rosés da casa, e então provei dois novos tintos estremes: um de Tinta Roriz (ou Aragonez, ou Tempranillo) e outro de Tinta Amarela (ou Trincadeira). Ambas são castas fora de moda, algo mal-amadas. A Roriz mostra-se muitas vezes rija e taninosa, difícil de amadurecer na vinha e facilmente caindo em excessos pouco apreciados pelos enólogos. A Amarela também é complicada, apodrece na vinha com facilidade e quando o não faz é muitas vezes levada pelo escaldão do clima tórrido, deixando pouco para contar em termos de vinho. São por isso muito bem-vindas estas apostas da Quinta de Ventozelo, que permitem ao apreciador explorar castas que usualmente têm apenas pequenos papéis em lotes com mais varietais.

E esta Roriz de 2017 mostrou a maciez, elegância e textura que eu esperava do seu local de origem, com um volume bonito, taninos lustrosos e boa firmeza ácida. Um canto do olho deitado ao rótulo mal me deixou acreditar nos 15% de volume alcoólico. Uma pena pelos parâmetros objectivos, mas confesso que na degustação o vinho não sai prejudicado, se acompanhado por comida forte. Meio grau abaixo, a Tinta Amarela mostrava menos equilíbrio, apesar de bons pergaminhos também. Tinha apenas um pouco menos daquele “grip” que nos agarra a boca e faz mastigar o líquido. Frutos vermelhos, maduros, elegância e fragrância, sempre para comida, que aqui pode ser mais suave. 2017 no Douro começa a mostrar as suas qualidades e estes vinhos podem ser já degustados ou guardados um bom par de anos, uma vez que vão melhorar e tornar-se mais complexos em garrafa. Já o velho álcool excessivo, que por vezes regressa para nos assombrar, ainda se vai render pouco a pouco às novas tendências de produção e de consumo. Para podermos beber mais um copo, não menos.

*O autor não escreve ao abrigo do Novo Acordo Ortográfico