Paulo Russell-Pinto fala-nos da sua querida casta Castelão e da respectiva reputação no mundo vínico. No final, dá algumas dicas de referências a ter em vista. E na garrafeira.

Está fora de moda e tem expressão limitada no país. Só estas duas razões poderiam ser suficientes para pormos a Castelão e os seus vinhos de lado e provarmos outros vinhos das grandes castas portuguesas que temos por esse país fora. Contudo, quais gauleses, há intrépidos vinhateiros que continuam a insistir que esta nos pode dar grandes vinhos e prazeres à mesa.

O mesmo se passava há alguns anos com a Baga. Ao mesmo tempo carrasco e sobrevivência da Bairrada, não dava aquela frutinha boa e direta que toda a gente gosta e foi preciso atravessar o deserto, ter os seus indefectíveis defensores para hoje ser compreendida, acarinhada e bebida no seu tempo.

Quanto à Castelão, parece que vamos no mesmo caminho. Setúbal, Lisboa e Alentejo não têm medo dela, há quem a procure entender melhor e quem já a conheça muito bem. Esta conjugação permite encontrar hoje bons vinhos “extremes” nas três regiões acima enunciadas. Esperamos que no futuro haja ainda mais.

A casta parece não dar a tal fruta que está na moda nem a cor intensa e carregada que muitas casas desejam. No entanto, concede um perfil único aos vinhos ao privilegiar a componente vegetal, as ervas aromáticas e as plantas resinosas. Claro que também há fruta, mas os outros descritores conferem à Castelão mais complexidade em função do terroir e dos solos onde está plantada, seja na Extremadura, na península de Setúbal ou no norte Alentejano. Gosta de sol, tem uma cor vermelha viva quando nova e, por tudo isto, é uma excelente concorrente a casta com futuro. Tem uma personalidade própria que oferece às novas tendências enológicas e de consumo vinhos menos intensos mas muito mais elegantes e frescos.

Chocapalha Castelão de vinhas velhas 2016 – Tem uma boa acidez, é herbáceo e tem aromas a ervas aromáticas de onde sobressaem os orégãos, o alecrim e depois fruta preta bem amadurecida. Estagia em madeira usada que ajuda o final equilibrado e prolongado.

Sem Vergonha 2016 – Este vinho da Serra de São Mamede de cor pouco carregada privilegia a fruta vermelha delicada, como a cereja e a framboesa e aromas delicados e mentolados de pinhal e eucalipto. É muito elegante e delicado no final.

Quinta da Mimosa 2016 – Apresentou-se muito complexo no nariz, com aromas a chocolate, cacau e cogumelos frescos. Mais um vinho com um fim de boca a saber a ervas secas, como o tomilho, e uma persistência longa e muito elegante

Periquita Superyor 2015 – Também é produzido a partir de vinhas velhas e estágio em madeira usada. Apresenta uma conjugação de notas herbáceas, fumadas e fruta vermelha fresca, com grande vivacidade. É um vinho muito estruturado com um final seco e perfumado.

Horácio Simões Tradição 2015 – Prevalecem no nariz os aromas a pinhal que se complementam com compota de frutos vermelhos. Na boca acresce o marmelo seco, a resina e termina com grande persistência.