A palavra e o conceito de legado têm um apelo imediato que é muito fácil justificar no mundo dos vinhos. No caso do mais recente topo de gama da Sogrape, lançado para o mercado pela primeira vez na colheita de 2008, as ligações semânticas são múltiplas e trazem todas apelo sentimental.

O Douro tinto Legado foi idealizado por Fernando Guedes, filho de Fernando van Zeller Guedes (fundador da Sogrape) e pai de Fernando Cunha Guedes, actual presidente do grupo. O seu criador, enólogo de formação e trabalhador incansável até ao último dia da sua vida, que terminou recentemente, observou uma das mais antigas vinhas da Sogrape, a vinha velha da Quinta do Caêdo, perto de Ervedosa, e o seu espírito irrequieto e criativo não pôde deixar de se interrogar se aquelas uvas estariam a cumprir o papel nobre que mereciam. As vinhas velhas oferecem uma concentração e estrutura extraordinárias aos vinhos, com a vantagem adicional que são mais estáveis face a anos bons e anos maus. Também são, nas palavras do enólogo Luís Sottomayor, mais geniosas: em cada ano o vinho sai como a natureza o pensou, ainda por cima se a filosofia for a de intervenção mínima, como é o caso.

O primeiro significado de legado é assim esta extraordinária herança que uma vinha velha representa: de património genético, mas também de práticas culturais milenares e que encerram em si mesmas sabedorias antigas que pouco a pouco a ciência e a técnica vão confirmando.

O segundo significado vem do exemplo de Fernando Guedes e da sua vida, entre 1930 e 2018. Começando na empresa fundada por seu pai (1942) por baixo, como ajudante de tanoeiro, haveria de passar por quase todos os papéis possíveis na empresa, haveria de estudar enologia em França, e depois subir a pulso na empresa que liderou e fez crescer. Foi ainda depois de passar esse legado que tinha recebido do seu pai ao seu filho Salvador que continuou a trabalhar diariamente na empresa, sempre exigente, criativo, jovial e incansável. Foi um privilégio conhecer este grande senhor do Douro e do vinho português. E com ele perceber essa noção profunda de legado que ele abraçou e marcou com o seu cunho e um vinho com esse nome e que representa todo esse significado. Fernando Guedes recebeu, cuidou, ofereceu, encarando sempre a sua empresa e os seus múltiplos e notáveis projectos (Mateus, Barca Velha, Sandeman, Ferreira, só para listar alguns dos emblemáticos) como uma responsabilidade da qual cuidava com gosto. Como no anúncio da Patek Philippe, para simplificar a mensagem: “You never actually own a Patek Philippe. You merely look after it for the next generation.”

O Douro tinto Legado foi idealizado por Fernando Guedes (na foto), filho de Fernando van Zeller Guedes, fundador da Sogrape. A colheita do vinho de 2014 lançada recentemente foi a primeiro após o seu desaparecimento em 2018. Foto: DR

E no momento em que mais uma vez a família Guedes se juntou à crítica especializada para lançar a nova colheita do Legado, a de 2014, ficou claro mais um significado profundo da palavra. Foi em 2019 a primeira vez que o Douro tinto Legado foi lançado sem a presença do seu criador, desaparecido em 2018. A família juntou-se emocionada ao grupo de jornalistas, amigos e funcionários da empresa, para homenagear o seu criador e conhecer o novo vinho que mais uma vez fez jus ao olho sábio que Fernando Guedes deitou para as vinhas velhas da Quinta do Caêdo. E em conjunto todos perceberam que este momento de rara comunhão entre profissionais do vinho que construíram ao longo dos anos um trajecto de respeito e admiração mútuos, este momento foi mais uma das heranças, mais um legado que Fernando Guedes idealizou, com o vinho Legado a celebrá-lo com a maior das distinções.

O Legado 2014 mostrou-se bem à altura desta data, num jantar preparado pelo chefe de cozinha Vincent Farges. Refinado, fresco, elegante, mostrando a suavidade de um ano onde o clima foi moderado e a vindima complicada, o que originou um vinho de álcool contido, profundidade e complexidade marcadas, mas sempre muito afável e bem-disposto, um grande senhor que se mostra acessível e cheio de bonomia, sem em altura nenhuma perder a noção da sua grandeza e responsabilidade. Como o seu criador, Sr. Fernando Guedes, cuja memória aqui saudosamente honro.

*o autor não escreve ao abrigo do Novo Acordo Ortográfico