Reformou-se ­Robert M. Parker Jr., o mais influente crítico de vinhos da história. E agora?

A história de Robert Parker é bem conhecida, vejamos um rápido resumo. Parker é um americano de Philadelphia, que se apaixonou pelo vinho em 1967 quando visitou a sua namorada, que estudava em França. Tirou o curso de direito enquanto se envolvia cada vez mais na prova profissional de vinhos, no aumento dos seus conhecimentos e na divulgação das suas opiniões. Parker ficou famoso quando provou a colheita de 1982 de Bordeaux, considerada na altura demasiado madura pela maior parte dos críticos. Parker louvou-a e o tempo provou que ele tinha razão, ainda hoje é considerada uma das melhores de sempre. Em 1984, Parker já vivia apenas dos proventos da sua newsletter, The Wine Advocate.

Lembremo-nos que a crítica era uma actividade considerada vulnerável à influência dos poderosos produtores de vinho. Havia histórias de provadores que visitavam as adegas deixando a mala do carro aberta, para que as generosas ofertas pudessem nela ser colocadas, amostras “para provar mais tarde.” Havia ainda um clima generalizado de não dizer mal de um vinho, destacar apenas os vinhos bons, não tomando as dores do consumidor na sua espinhosa missão de separar o trigo do joio. Vinhos de prestígio e alto preço que não entregavam a qualidade à altura dos seus pergaminhos navegavam neste mar de hipocrisia sem que ninguém dissesse o “rei vai nu.”

Parker, com a sua adopção da escala de 50 a 100 pontos, tirada do seu próprio percurso escolar, e a sua atitude desempoeirada e directa, quase iconoclasta, veio mudar o mundo da crítica de vinhos e inaugurar uma nova era. O seu obvio entusiasmo ajudou a introduzir muitos novos consumidores no mundo do vinho de qualidade, e a sua exigência também ajudou a que muitos produtores melhorassem as suas práticas vitícolas e enológicas, para almejar a vinhos de grande qualidade e ambição.

Ao longo da vida, Robert Parker teve antagonistas e detractores. Houve polémicas com produtores da Borgonha, que argumentavam que ele não entendia os vinhos mais elegantes e delicados. Nasceu o termo “vinho parkerizado” ou seja, um vinho feito ao gosto de Parker e desenhado para receber altas pontuações na sua escala, o que muitas vezes significava um aumento de notoriedade, de preço, de quantidade vendida, de lucros. Os seus detractores acusaram Parker de ser demasiado influente, de tornar todos os vinhos muito maduros e concentrados, cheios de madeira e álcool, muito óbvios para os consumidores.

Mas quem lesse as suas críticas com atenção (e não apenas as suas pontuações, ou ainda pior, os resumos que a imprensa e os publicitários faziam delas) notava que essas acusações eram injustas. Nem Parker teria a capacidade de exercer tamanha influência, em tantos milhares de produtores em todo o mundo, nem de facto o tentava. Parker sempre preferiu vinhos equilibrados, complexos, elegantes e profundos. A sua única vinha, em sociedade com um cunhado, e onde nunca teve qualquer acção executiva ou de promoção, era de Pinot Noir (Beaux Frères, no Oregon), uma casta que dá vinhos leves e elegantes, e o seu vinho preferido era o Château Haut-Brion, um Premier Cru de Bordeaux reconhecido pela sua elegância e equilíbrio.

Eventualmente, como tantos outros críticos, Parker pontuava bem vinhos poderosos e concentrados, mas isso não é um pecado seu, antes uma consequência de uma enologia mais moderna, de um aquecimento global que vai aumentando as maturações das uvas, de um alargamento da base de consumidores de vinho que vão tendo paladares menos treinados e portanto procuram sabores mais óbvios e fáceis de decifrar.

Apesar da polémica, a integridade e competência de Parker nunca esteve em causa, e pouco a pouco tornou-se o crítico de vinhos mais influente da história do planeta. A sua escala foi adoptada por muitos outros, e o seu estilo de escrita entusiástico foi copiado. Além do boletim em papel, Parker criou um conjunto de meios de comunicação on-line, incluindo fóruns, repositórios e aplicações. Pouco a pouco foi contratando outros críticos para o ajudarem a cobrir regiões específicas, num mundo do vinho que crescia em amplitude e influência nas nossas vidas. Parker foi-se focando nas regiões da sua predilecção, em particular Bordeaux, Rhône, Califórnia, Austrália.

Em 2012, já com uma carreira longa de décadas, Parker anunciou que vendia a sua The Wine Advocate a um consórcio de investidores asiáticos, tendo a direcção editorial passado para Lisa Perrotti-Brown. Mais tarde, em 2017, a Michelin comprou 40% do negócio. Gradualmente, Parker foi-se afastando da crítica, deixando o trabalho mais duro para colaboradores que tinham já sido escolhidos por si. Lisa Perrotti-Brown anunciou agora que Robert Parker se retira da actividade aos 71 anos. Quem provou com ele recorda um super-provador, dotado de grandes capacidades perceptivas e de uma extraordinária memória sensorial. Provar mais de 10 mil vinhos por ano ao longo de décadas é uma façanha extraordinária. Fazê-lo com critério, coerência e dedicação, transformando a indústria do vinho, alargando a audiência e a clientela, mudando para sempre a própria actividade de crítico de vinhos, provocando admiração e fascínio em todo um sector, é um feito notável. Retira-se Parker, deixando vaga uma cadeira que ninguém tem a capacidade ou sequer a ambição de ocupar. Hoje a crítica mudou, cada crítico procura encontrar os seus leitores e as suas próprias descobertas, muitas vezes com uma especificidade que fragmenta a cobertura, também por causa do enorme aumento do número de marcas, estilos, tipos, regiões.

Fica vazia a cadeira. Um brinde a Robert M. Parker Jr. e ao seu legado.