Ambiguidade e dualidade não são exactamente a mesma coisa. O mundo do vinho português tem bastante das duas, e vive bem com isso. A dualidade é um fenómeno comum e até bem-vindo no mundo do vinho. Aliás, são as dualidades que enriquecem os vinhos e tornam o assunto tão fascinante. É desse fascínio que se constrói o valor e é esse valor e a sua percepção que formam a matéria-prima dos sonhos dos apreciadores de vinhos. Só no período de escrever esta curta introdução já recordei um mar de dualidades (deixemos as ambiguidades por agora de lado). Vejamos dualidades: enólogo e produtor; tinto e branco; ruby e tawny; produtor e consumidor; enólogo e viticultor; vinho de negociante e vinho de produtor-engarrafador; lote e monocasta; vinho natural e artificial; vinho de lote e vinho de terroir.

Foquemo-nos nestes últimos. A Sogrape é o maior gigante do vinho português. Entre os seus muitos vinhos de sucesso tem o Mateus Rosé, um fenómeno à escala mundial. É um vinho de lote, feito com mostos que são refrigerados e sulfitados antes de fermentarem, para depois serem fermentados a tempo de produzir um produto que sendo bom (eu sei que é bom, gosto e consumo Mateus Rosé), tem como principal objectivo a estabilidade e coerência, ser o mais uniforme possível ano após ano, mês após mês. No outro extremo desta dualidade, a Sogrape também é proprietária, entre muitas outras marcas e quintas, da Casa Ferreirinha, de onde sai o mítico Barca Velha, um vinho de pequena produção, feito com todos os desvelos, para se tornar o mais icónico vinho de mesa português, cobiçado e desejado por todos quantos apreciam grandes vinhos. O Barca Velha é um tinto do Douro, feito segundo os princípios do lote: procuram-se as uvas nas origens que em conjunto oferecem o jogo de equilíbrios entre concentração, maturação, frescura, densidade, profundidade, complexidade, que garantem prazer desde que é lançado, cerca de 8 anos após a vindima, até longas décadas depois. Nessas origens estão quintas junto ao rio Douro, mas estão também vinhas de altitude, para conjugar a acidez que os planos elevados garantem com a concentração e maturação que o calor tórrido dos baixos assegura. Dualidades. Mas podemos continuar a adicionar eixos a esta equação. Mesmo no topo da gama da Sogrape, pode haver dualidades. De um lado está o mítico, monstruoso, glamoroso, Barca Velha, um vinho encorpado, texturado, concentrado, mas com uma patine sofisticada, grande equilíbrio e complexidade. O Barca Velha é um vinho que tem um estilo a manter e, quando não preenche todos os parâmetros da equipa de enologia, realiza-se no Casa Ferreirinha Reserva Especial, uma espécie de Barca Velha dos anos-off. Ao longo das últimas décadas, o Reserva Especial é tão raro como o Barca Velha, e oferece muitas vezes quase o mesmo prazer por um preço mais acessível. É uma óptima relação preço-qualidade, mas mantém grosso modo o mesmo estilo.

O oposto desta dupla BV-RE, também lá no topo da gama, está do lado Sogrape, fora do selo Casa Ferreirinha, e chama-se Legado. O Legado é um vinho de uma só vinha, uma parcela velhíssima e lindíssima da Quinta do Caêdo, na encosta do rio Douro, logo abaixo de Ervedosa. As vinhas velhas têm uma estrutura completamente diferente das restantes, têm muita mistura de castas, as videiras são mais baixas, gerando quase todos os anos uma produção muito diminuta de uvas com maturações muito equilibradas, já que as raízes das videiras vão buscar muito fundo os nutrientes que precisam para se manter em actividade durante o Verão tórrido. O Legado é assim um vinho de terroir, um vinho que em cada ano dá o estilo que a combinação clima-sítio oferece, cabendo ao homem apenas escolher a altura ideal para colher as uvas, e ainda o tipo de vinificação e estágio que melhor representem esta noção de origem.

O Legado tem este nome porque representa uma herança, percepcionada pelo Sr. Fernando Guedes, filho de Fernando Guedes fundador da Sogrape e pai de Fernando Guedes, o seu actual CEO. Foi o Sr. Fernando Guedes que sugeriu que se experimentasse fazer este vinho com as uvas da vinha velha do Caêdo, já que eram tão poucas que pouca diferença faziam nos lotes onde antes entravam. Luís Sottomayor, enólogo chefe da Casa Ferreirinha e fazedor maior dos vinhos da Sogrape do Douro e Porto, teve a responsabilidade de transformar este sítio num vinho que deixou raízes. 2007 foi a primeira colheita, ainda experimental, 2008 foi o primeiro ano a ser comercializado. Desde então, cada ano nos fala do seu clima, da sua época vegetativa, das suas alegrias e tristezas. Cada Legado nos deu as suas diferenças, nunca mais a sua permanência. O 2013 foi apresentado na Quinta de Cavernelho, cuja adega foi, por uma noite, transformada numa sala de jantar, com o cozinheiro duriense Rui Paula a fazer a alquimia do fogo nos alimentos. A Quinta de Cavernelho foi comprada pela Sogrape em 1960, e ali foi construído um importante centro de vinificação, a funcionar até hoje. Este sítio e data emblemáticos foram celebrados ao jantar com a abertura de um Ferreira Vintage 1960, que Rui Paula fez brilhar com uma surpreendente ligação: fromage blanc com pistacho e framboesa. O Legado 2013 mostrou aroma muito compacto e rigorosamente definido, com barro húmido, frutos vermelhos muito discretos, tenso e complexo, profundo e elegante. Fresco e macio na boca, com taninos polidos e acidez perfeita, um vinho bonito e educado, suave e harmonioso, contido, com longo final a dar uma nota de força suave.

* o autor não escreve ao abrigo do novo acordo ortográfico