Dia 23 de Abril, às 11h30, a equipa da Kopke (que, fundada em 1638, disputa o título de casa mais antiga de vinho do Porto) reuniu-se virtualmente em torno das suas engenhocas electrónicas, vulgo gadgets. Previamente tinha sido convocada uma vasta assembleia de especialistas, desde jornalistas e críticos até escanções e compradores de vinhos. O objectivo , em dias de confinamento e isolamento, era proceder com o business as usual, havia um novo vinho para lançar, um vinho especial que merecia esta fanfarra: o Kopke Winemaker’s Collection Tinto Cão Douro Rosé 2019­. É apenas a segunda edição do Winemaker’s Collection, o primeiro foi um Grande Reserva branco, feito com Arinto e Rabigato, lançado em Outubro de 2019. Agora, tempos de Covid, temos um bem-vindo rosé que chega a tempo de nos desconfinarmos em soalheiras esplanadas, bem distanciados uns dos outros.

A plataforma utilizada foi o Zoom, e a certa altura contei 78 participantes a emitir e receber áudio e vídeo, numa sessão que deu para matar algumas saudades do tempo em que falar com as pessoas era uma coisa banal. Tecnologicamente, correu tudo muito bem. Os responsáveis da Kopke explicaram o projecto Winemaker’s Collection, liderado pelo enólogo Ricardo Macedo, que tem como mote a experimentação e a liberdade em torno dos diferentes micro-terroirs no Douro e da criatividade focada na vinificação e estágio, para criar vinhos únicos. Pena que são só 2541 garrafas, mas as experiências são mesmo assim. Correndo bem, haverá mais no futuro, talvez um vinho a lançar com mais frequência e em maior quantidade.

Para o vídeo-lançamento, as garrafas foram antecipadamente enviadas, e os participantes puderam refrescá-las e degustá-las nas devidas condições, em particular, acompanhando uma interessante conserva de cavala em azeite, proposta para emparelhar com o vinho, demonstrando assim a sua versatilidade. Convocados os provadores, eles não se fizeram rogados a descrever o vinho com os usuais descritores, disputando entre si a criatividade de descobrir mais um, de preferência exótico q.b. O vinho, que na verdade merecia todos os elogios, mostrou uma pálida cor salmão muito bonita, grande elegância nos aromas florais e de suaves frutos vermelhos, muito equilíbrio na boca entre a estrutura, a acidez, o corpo harmonioso e os taninos muito finos, e um final feito de delicadeza e fragrância, a confortar a alma e acender as papilas gustativas. O trabalho com a madeira foi exemplar, a dar um fumado muito discreto que valoriza o vinho sem pesar. Com um preço ao público em torno dos 20€, é um rosé ambicioso, mas mostra pergaminhos para justificar a ambição. A singularidade de ser um Tinto Cão estreme também é de louvar. A Tinto Cão é uma das 5 castas-estrela para o vinho do Porto (junto com Touriga Nacional, Touriga Franca, Tinta Barroca e Tinta Roriz), tem virtudes que complementam as outras mas raramente aparece a solo. Com apresentação ousada, a roçar o overkill, este é um rosé para brilhar à mesa, acompanhando entradas e pratos de verão, mas também não desdenha ser bebido só por si, em clima de festa, porque a vida não espera.