Sejamos francos, a liberdade devia vir com manual de instruções! Um candeeiro do IKEA onde a única coisa que há a fazer é enroscar o casquilho no abat-jour, 2 peças, 1 movimento, traz sempre, dentro da caixa que o contém, um pequeno livro de não menos que 3 ou 4 páginas a descrever ao pormenor como se deve proceder para que se faça luz. Então como é possível que algo tão infinitamente mais complexo, com um número tão maior de componentes, não traga instruções de montagem e utilização? De que estamos à espera quando ilustramos a nossa concepção do conceito com a recorrente frase “a minha liberdade termina onde a do outro começa”? O que é que isto quer dizer? Que optimismo ingénuo nos leva a crer que é possível entender o que é ser livre sem se estimular e educar a empatia? Como se pressupõe que uma sociedade egoísta compreenda e se reja por normas altruístas? A liberdade não é individual, não é “fazer o que eu quero”, não parte do próprio umbigo e é isso que a torna difícil de montar.

É certo que vivemos tempos complicados, descritos com recurso às mais variadas figuras de estilo, algumas delas que desde os tempos das aulas de Português temos dificuldade em interpretar. Estamos rodeados de antíteses e paradoxos irónicos que nos deixam confusos e põem a descoberto a mais básica irracionalidade do ser humano, animal racional. Não é óbvio para o Sr. Manel que esteja a ser livre quando se mantém distante dos outros, quando limita as suas saídas de casa ao mínimo necessário, quando não vai visitar a sua mãe ou avó que está num lar. Não é imediato para a D. Maria entender que está a fazer pleno exercício da sua liberdade quando vê dois pacotes de papel higiénico na prateleira do supermercado e resiste à tentação de meter ambos no carrinho. Nem passa pela cabeça do editor do pasquim que pode estar a privar muitos outros de serem livres quando difunde e propaga informações erradas, falsas ou infundadas que perpetuam a ignorância e a tacanhez e levam a que se esgotem luvas, máscaras, gel desinfectante e álcool etílico. Exige uma invulgar capacidade de supressão do ego que um determinado governante se abstenha de racializar a causa da pandemia e, dessa forma, evitar que se acrescente à já longa lista de estereótipos que uma comunidade emigrante carrega num país que não é o seu, mais um, que restrinja só mais um pouco a amplitude da sua liberdade.

Está em curso o maior “dilema do prisioneiro” da história mais recente e todos nós estamos em jogo, dia após dia, tomando decisões que determinam quem perde, quem ganha, quem sofre, quem prospera. A história e a estatística confirmam a nossa ilógica tendência para a escolha do cenário menos favorável, em que uns ganham muito às custas das perdas dos outros. Entre ter um pouco menos para que os outros possam também beneficiar, ou ter tudo quando isso implica que os outros não tenham nada, escolhemos a segunda opção. Porque não acreditamos que os outros façam o esforço por nós. Porque somos cépticos em vez de crentes. Porque competimos em vez de colaborarmos. “A minha liberdade termina onde a do outro começa”. Como é que poderei saber onde isso é se não me dou ao trabalho de olhar para o lado e vivo a olhar para dentro? Como posso ser livre sem empatia? Não consigo! Então nego a existência do “outro” e açambarco a liberdade como se estivesse em ruptura de stock.

Há, no entanto, leves sinais de esperança na mudança. As crises têm esse condão, de no meio do caos propiciarem o restabelecimento da ordem. Aproveitemos todos então a oportunidade que o universo nos está a dar de nos redefinirmos como verdadeiramente livres sendo dependentes do outro, vinculados ao próximo, reféns do bem comum.