O meu nome é Bruno Caseiro, sou cozinheiro e tenho um restaurante, na Comporta. Como muitos outros, resolvi fechar as portas do meu estabelecimento, proactivamente, antes de qualquer deliberação nesse sentido por parte dos governantes deste país. Antes de me sentir em perigo, antes de haver qualquer caso registado no Alentejo.

O racional por trás da minha decisão foi só um, fazer a minha parte para parar, abrandar, estagnar a propagação de um vírus que já marcou de forma indelével o ano, o século. Um vírus que está presente em 180 países. Só faltam 15 para atingir os 195 países que existem no mundo. Menos do que aqueles que alguns de nós já terão visitado como turistas.

De acordo com algumas pesquisas que pude fazer, o primeiro caso atingiu Portugal no dia 2 de Março. Há algumas dúvidas em relação a quando tudo começou na China, mas terá sido algures entre final de Dezembro de 2019 ou início de Janeiro de 2020. A Organização Mundial de Saúde afirma que terá sido a 31 de Dezembro. Em números redondos, quase 2 meses de diferença entre começarmos a perceber, pelas notícias, a gravidade do assunto e sofrermos, na pele, o primeiro choque quando bateu à nossa porta. Pelo meio, a 30 de Janeiro, este surto é declarado como uma Emergência de Saúde Publica a nível mundial.

Já se implementavam medidas sérias de isolamento e quarentena na China, os infectados já eram aos milhares, os mortos às centenas, quando na Europa e um pouco pelo resto do mundo se ouviam declarações de líderes que relativizavam, negligenciavam, recusavam a urgência do assunto e, inclusivamente, sobrestimavam a capacidade de controlar e impedir que nos seus respectivos países, o cenário se tornasse crítico. O problema estava longe, na “Conchichina”. Não havia razões para pânico.

Antes de ser cozinheiro, fui psicólogo. Ao longo da minha licenciatura pude estudar várias dimensões do comportamento humano e, ao pensar sobre o texto que agora escrevo, dos meus tempos de estudante vem-me à cabeça um autor, bastante conhecido, Jean Piaget e a sua teoria sobre as fases do desenvolvimento intelectual. Não querendo entrar em muitos detalhes vou focar-me apenas num exemplo que, creio eu, ajuda a ilustrar o aspecto sobre o qual julgo que todos devemos pensar um pouco. Um dos grandes saltos evolutivos ao longo do crescimento de um ser humano, intelectualmente falando, é a mudança de um tipo de pensamento concreto para uma capacidade de raciocínio abstracto. Até aos 2 anos de idade, em média, um bebé, ao brincar com algo que de repente lhe cai das mãos e rola para debaixo de um sofá, saindo do seu campo de visão, acredita que aquele objecto deixou de existir. Desapareceu. A reacção imediata, na grande maioria das vezes, o choro. À medida que a criança cresce adquire a capacidade de perceber que aquele objecto continua a existir mesmo que não esteja à sua frente. Esta capacidade de pensar em abstracto é fulcral para muitos aspectos do nosso desenvolvimento, sendo o principal a linguagem.

O que é que isto quer dizer? Que aparentemente desde os 2 anos de idade que não há qualquer razão para acreditarmos que algo que não vemos, que não temos por perto, não nos pode afectar, não nos pode magoar, a nós ou aos que nos rodeiam. Quer dizer que, quando achamos que se está longe da vista é mais fácil que fique longe do coração também, prejudica-nos mais do que nos protege. Porque não somos invencíveis, não passamos pelos pingos da chuva. Lidarmos com os problemas em abstracto, assumirmos que nos vai “calhar” a nós, planear, prevenir, antecipar, pode evitar que soframos em concreto, com o que nos possa acontecer, a nós, aos nossos pais, filhos, avós ou amigos.

Ficar em casa, limitar interacções, fechar restaurantes? Ainda é preciso justificar porque é que isto é importante? É que isto até uma criança com pouco mais de 2 anos já é capaz de perceber.

*O autor não escreve ao abrigo do novo acordo ortográfico