Fechados em casa, no seu apartamento ou restaurante, seis cozinheiros de Lisboa e Porto, criaram negócios alternativos relacionados com o seu ofício — tudo para continuar a oferecer aos seus clientes o conforto que só a comida proporciona. Falámos com Pedro Bandeira Abril, Shay Ola, Marta Caldeirão, Pedro Coelho, João Pupo Lameiras e Hugo Brito para conhecer os seus projetos gastronómicos em tempos de quarentena e descobrir como funcionam.

Menrui – The Slurper

Pedro Bandeira Abril faz noodles em casa desde que se lembra. Nos restaurantes onde trabalhou [o seu último poiso foi na Taberna Sal Grosso, Lisboa], esse era um dos pratos que mais cozinhava nas refeições de staff. Inspirado pelos trabalhos dos chefes David Chang em Singapura e Ivan Orkin em Nova Iorque — onde comeu uma das melhores refeições da sua vida —, o cozinheiro foi aprimorando técnicas e sabores. O facto de estar fechado no seu apartamento, devido ao novo coronavírus, veio criar uma janela de oportunidade de abrir um restaurante de noodles… em casa. “Penso que neste momento de incerteza, que todos queremos estar com os nossos e não podemos, esta é uma maneira de levar às pessoas um pouco do aconchego de casa, de conforto. Ao mesmo tempo, é uma forma de levá-las a viajar, porque a comida tem esse poder”, explica Pedro.

Menrui – The Slurper tem inspiração asiática e é um projeto que nasceu há cerca de um mês. O método de funcionamento é sempre o mesmo: durante o fim de semana, na sua conta de Instagram, Pedro dá a conhecer o menu da semana onde faz questão de sempre incluir uma versão de noodles salteados e outra com caldo — sempre com doses reduzidas. “No menu, já passei pelo Japão com duas versões de ramen, um Shoyu e um Tonkotsu, pela China, com uns noodles Kung Pao e um Hot & Sour e pela Coreia, com um Jajangmyeon. Nas próximas edições vai haver Ramyeon, Japchae, Mie Goreng, Laksa e, provavelmente, um Low Mein“, revela. Como explica Abril, em casa, basta aquecer os noodles salteados ou ferver o caldo que vai num saco de vácuo e verter sobre os noodles e toppings que já estão prontos. Paralelamente, o cozinheiro tem uma oferta de sobremesas, sempre em doses pequenas. “São sempre coisas gulosas e pouco complicadas.” Arroz Doce de Coco, Blondies de Manteiga Noisette e Tiramisu de Caramelo Salgado são algumas daquelas já preparadas por si.

As entregas são apenas às quartas-feiras, entre as 17h e as 20h. Recentemente, a loja de vinhos Rebel Rebel juntou-se ao Menrui – The Slurper e todas as semanas, há agora uma oferta de vinhos biológicos que faz pairing com o menu.

Muito em breve, Pedro abraçará o projeto Chapitô à Mesa que segundo revela, vai ter um serviço delivery e take away de comida portuguesa — outras das suas paixões, além da cozinha oriental. Esta será “de tacho, acessível, sem rodeios nem artifícios, tradicional.”

Queimado – The Social Distancing Pop up

Durante a crise financeira de 2007–2008, vários restaurantes começaram a apostar em serviços de take away. Nessa altura, para se destacar dos demais, o britânico Shay Ola deu início ao projeto The Rebel Dining Society em que organizou uma série de jantares pop up que acabaram por ganhar notoriedade na cidade de Londres. “Nestes tempos incertos, a comunidade é muito importante. E mesmo que as coisas estejam difíceis, devemos sempre continuar a ser inovadores. E eu queria oferecer algo único aos nossos clientes”, começa por explicar o chefe e proprietário do Queimado, em Lisboa, restaurante onde o grelhador a carvão é o protagonista, sobre o início do seu The Social Distancing Pop Up.

O primeiro pop up desta iniciativa aconteceu no início deste mês, em parceria com o East Mambo [restaurante especializado em kebabs] do chefe Bernardo Agrela. Já o segundo, decorreu no fim de semana passado, desta vez em conjunto com o Crispy Mafya [restaurante especializado em frango frito]. A ideia é sempre criar um menu de fusão entre ambos os restaurantes. Como explica Shay, “queremos providenciar uma experiência divertida com comida deliciosa”.

O terceiro — e provavelmente o último pop up do Queimado — acontece nos próximos dias 1 e 2 de maio, e será dedicado às bebidas, que no restaurante de Shay também têm especial destaque. “Queremos trazer a diversão da feitura dos cocktails para dentro das casas das pessoas”, explica.

Ao contrário de outros restaurantes, o Queimado trabalha com um serviço de entregas independente que transformou o seu negócio e adaptou-o. “Estas são exatamente o tipo de pessoas que queremos apoiar, já que é a única maneira de sobreviver a estes tempos difíceis. Acho vergonhoso que as grandes companhias não tenham feito nada para ajudar os restaurantes nestes tempos desafiantes. Orgulho-me de apoiar os empreendedores locais.”

As encomendas podem ser feitas diretamente no site que cobrem toda a região de Lisboa.

The Sandwich Project

Marta Caldeirão e André Coelho (ambos ex-Local, Lisboa) preparavam-se para abrir o seu primeiro restaurante em Lisboa — Âmago de seu nome — quando a epidemia começou. Com um restaurante pronto entre mãos, os chefes acabaram por ficar com os encargos financeiros que isso agrega mas sem poder abrir. “Decidimos que teríamos que fazer alguma coisa para sobreviver até isto tudo passar e surge criar o The Sandwich Project”, começa por explicar Marta. Pelo facto de “não haver muita coisa parecida no mercado” e de ser algo de “baixo risco financeiro”, os cozinheiros arriscaram-se nas sanduíches.

Lançado no primeiro dia do mês de abril, de momento, no menu, há quatro sanduíches — com pão de mistura feito pelos chefes, a partir de massa mãe — todas com nomes inspirados no mundo da musica: pork floyd (cachaço de porco, molhos bbq asiático e pickle de pepino), red hot chilli chicken (peito de frango, maionese de chipotle e ananás braseado), veal division (novilho estufado, maionese de coentros e maçã verde fresca) e xutos & cogumelos (cogumelos pleurotus, queijo brie, maionese de cebola roxa e balsâmico). A acompanhar há batatas fritas e cervejas da Musa.

“Infelizmente não saberemos quando isto tudo irá passar e poderemos abrir as portas do Âmago, portanto o The Sandwich Project vai ser o nosso foco até lá”, diz Marta.

A encomenda por ser feita através da pagina de Instagram do projeto e é entregue pelos próprios, todos os dias, no concelho de Lisboa, entre o 12h e as 15h e entre as 19h e as 21h. Também funciona em modo delivery, com recolha na morada do restaurante (Rua da Alegria, nº 41c).

Pausa

Assim que percebeu que teria de se adaptar a uma nova realidade de trabalhar em regime take away, João Pupo Lameiras, chefe dos restaurantes RO, no Porto, colocou mãos a obra, e no espaço de “um, dois dias” tinha a ideia, o nome, a imagem e o menu para uma marca em nome próprio prontos. Surge Pausa, um serviço de pratos “prontos a acabar”, congelados e a vácuo entre entradas, pratos principais e sobremesas. “A ideia é que as pessoas e famílias tenham acesso a refeições prontas com alguma validade permitindo a organização das mesmas num período alargado de tempo. Os pratos têm uma vertente caseira e de fácil compreensão, abordando algumas referências de cozinha do mundo e sempre gulosos.”, explica João.

Gyosas de leitão com ponzu de laranja, empada à inglesa de novilho, burek de espinafres, bochecha de porco, caril thai de frango, magret de pato, rosbife com molho de carne, pastilla marroquina de frango e alperces, bacalhau gratinado com castanhas e espinafres, salmão miso e strudel de maçã são alguns dos pratos disponíveis no menu.

As encomendas devem ser feitas até às 18h através dos números de telefone 913068323, 223166069 ou através da Uber Eats. As entregas acima dos 30€ são gratuitas no Porto e em Matosinhos Sul.

Phoi Cavalo & Chicken

Adaptar o menu de degustação do Boi Cavalo ao regime de take away e delivery não era uma opção para Hugo Brito. Foi então que surgiu a ideia de voltar a reativar o projeto Phoi-Cavalo, um pop up de 2016 que aconteceu no Trienal de Arquitetura de Lisboa e em que Hugo fazia as suas próprias versões do pho vietnamita. “Decidi juntar a esse conceito dos pho o frango frito que é algo que se for bem feito pode ser muito interessante gastronomicamente e das coisas mais recompensadores de comer. O conceito é uma espécie de identidade híbrida americana-vietnamita”, começa por explicar.

Dumplings de entrecosto de leitão e gochujang, phoi clássico (agulha de novilho, rabo de boi, noodles de arroz), pho vegetariano (milho, shitake, noodles de arroz), sanduíche de frango frito em polme fermentado (coleslaw, ervas, brioche Terrapão, salada de batata), frango inteiro frito em polme fermentado (com sambal ervas, salada de batata), gelado de café e cardamomo, tamarindo e arroz tufado são algumas das opções do menu. Pelo meio, há pratos especiais como aquele da próxima quarta-feira (29 de abril), que será composto por um burrito com arroz frito, entrecosto, favas, pickles e ervas asiáticas. “Os especiais acontecem no sentido de continuar com a nossa identidade Boi-Cavalo de oferecer coisas diferentes e também para tornar as coisas mais interessantes para os clientes.”

Ao fins de semana, o Phoi Cavalo & Chicken tem ainda duas sugestões de brunch onde se incluem os pratos banh mi (lombo de porco, patê e pickles), crepes de arroz com camarão e papaia, croissant torrado e salada de abacate e tártaro de atum com bolachas de camarão e sésamo, só para dar alguns exemplos.

Para encomendas ou take away, o Phoi Cavalo & Chicken está disponível todos os dias entre o 12h e as 22.30h. As mesmas devem ser feitas para o número 938752355 ou através da app Uber Eats (apenas cobre o centro de Lisboa).