Desde os 12 anos que tenho um diário, por isso este exercício diário de escrita não me é difícil, mas antes libertador. Quando era miúda lembro-me de escrever horas e horas sem fim. Era o que fazia não ter gente da minha idade por entre a vizinhança e apenas a planície do Mondego como companhia por onde vagueava até ao pôr-do-sol. A propósito de escrita fascina-me o contraste entre a inocência do papel e a firmeza da escrita. Escrever sobre papel branco não deixa de ser, em toda e qualquer ocasião uma tomada de posição, não deixa de ser o momento em que se desenham palavras que são estrangeiras ao inocente papel branco. As sombras em forma de escrita que a mão compõe têm sempre um propósito. Com o que fica escrito constroem-se ou derrubam-se opiniões, clarificam-se ou escurecem-se ideias, eleva-se a beleza ou desnuda-se o grotesco. A força das palavras escritas pode ser uma gargalhada ou um choro, uma ponte ou uma fronteira que aproxima ou distancia quem escreve e quem lê. Por isso, sempre admirei quem escrevia e transmitia a beleza para que nos aproximássemos dela e quem falava da miséria para que se fizesse a necessária purga. Também aprendi a respeitar a escrita como uma força maior e a fugir das palavras más, daquelas que há muito declarei como proibidas. Aprendi que as palavras deveriam ser utilizadas sempre para esclarecimento dos homens, servindo propósitos de humanidade. A palavra tem poder. A palavra dá poder. Por isso gosto das palavras, do ritual de escrever todos os dias tentando sempre encontrar o melhor fio condutor, sem moralismos. Por isso, gosto de escrever este diário. Todos os dias ganho força com as palavras que coloco no inocente papel. Nestes dias em que nos vimos abalados pela incerteza do tempo intermitente nunca foi tão necessário recorrer à palavra como fonte de inspiração e pôr a palavra na rua. Dar-lhe força pelo que ela tem de positivo, de genuíno, de generoso, de mobilizador. E o resultado está à vista. As palavras vibram, enchem o mundo, dão força a quem não a tem. E isso é bom. Sente-se a tranquilidade para além do resto porque as palavras foram soltas para trazer ao de cima o melhor de nós. Está mais do que visto que as palavras também nos protegem como um casulo onde tecemos o conforto dos dias. São grandes e quentes e dão-nos abrigo, fazem-nos sorrir e às vezes chorar de emoção. Rebentam em nós como espuma do mar acabada de bater na areia. As palavras, são nossas e desenham inocentes sorrisos nos nossos corações. Da inocência do papel à firmeza das palavras, adoro o caminho que se preenche no entremeio.