Uma vida inteira a lidar com receitas de culinária, a olhá-las, a estudá-las, a tentar encontrar-lhes os contornos singulares e nunca tinha pensado como através delas nos aproximámos uns dos outros. Quando partilhamos receitas com alguém fazemo-lo na assunção de que aquela pessoa nos é próxima o suficiente para perceber os pormenores que lhe estamos a transmitir. Sabe a exata medida do punhado, do bocado, da macheia, da pitada, do q.b., do cheirinho. Entende o poucochinho, o mexer bem, o tempo de cozedura, a amassadura perfeita. Percebe qual o tamanho do púcaro, da chávena, da colher, do raminho. Tantos pormenores só se podem partilhar com quem conhecemos bem e percebe o que estamos a dizer. Para além das quantidades e modos de preparação que podemos divulgar, atrevo-me a dizer que as receitas são uma espécie de código secreto entre quem dá e quem recebe. Impossível de compreender para quem vem de fora, claro como água para quem se conhece. É um código, um segredo, palavras que traduzem sabor, gosto. Não são ditas no vazio, mas sempre no contexto da relação entre gente, pessoas que já partilharam refeições. Que sabem o que é saber bem, estar no ponto, saber como um pitéu. De tal forma que através da comida mantém-se a identidade de uma família, de um grupo, de uma comunidade que se distancia de outra família, grupo ou comunidade que até pode viver ali ao lado, mas que põe mais vinagre no arroz malandrinho de cabidela ou que coloca ovos na receita de arroz doce. Numa família, há receitas perfeitas e outras sagradas. Intocáveis, por isso, até pelas histórias que contam dos momentos felizes ou menos bons. Ninguém se atreve a mexer nas receitas da família. Elas levam o gosto do grupo, da comunidade, da região para além da linha do tempo, do hoje para amanhã. Por isso, choramos com o sabor da família, por isso sentimos saudades do sabor da terra. As receitas fazem-nos sentir parte de um extenso grupo e contam a nossa história e a dos outros. Mas as receitas não significam só fechamento e fronteira, mas também ponte e linha que passa a fronteira. Também queremos olhar as receitas dos outros e provar. Por isso, vivemos desde sempre tão fascinados com o exótico, com aquilo que é diferente. Por isso, no passado, mudámos as receitas e de novo estamos dispostos a assumir a mudança, o desafio de comer diferente. Por isso, queremos experimentar receitas novas ainda que não saibamos exatamente o sabor que irá ter. No limite, fazemos a receita e damos-lhe o nosso gosto, o gosto lá de casa. E assim vamos crescendo no sabor, mudando alguns pormenores e vamos fazendo da comida linha que une cada vez mais. Neste tempo que convida a olhar a cozinha como companhia e as panelas como abrigo da nossa inspiração, lembrei-me de como as receitas inundam as redes sociais. Estamos cada vez mais próximos uns dos outros. Queremos que na nossa cozinha e sala de jantar esteja o mundo todo, o mundo que nos acolhe e com o qual vamos partilhando as dores e alegrias dos nossos dias. A cozinha tem o tamanho do mundo feita Torre de Babel e lá dentro constrói-se o sabor que nos dá conforto. Essa cozinha é onde estamos bem e somos felizes.

Isto tudo a propósito das receitas que vi nas redes sociais, mas lindo, lindo é a receita de Flor-de-laranja do Livro de Cozinha da Infanta D. Maria. Vejam a delicadeza, a beleza… “Escolherão a flor, a mais fresca e grossa que se achar, e a folha melhor, e deitá-la-ão assim estar na água uma noute e o dia que se escolher, e deitá-la-ão numa pia larga, a mais que aí houver, e que seja cheia, e machucá-la-ão… (…)”. As receitas contam histórias. De quem as escreveu e de quem as recebe. E no meio está o sentimento que une uma e outra parte da história. Quanto à flor mais fresca ou a flor melhor, lindos deveriam ser os olhos de quem escreveu com esta delicadeza.