Precisamos de dias felizes, de poder respirar e cheirar a Primavera. Precisamos de uma folga. Sabemos que não está para breve, mas ajudava. Os nervos andam à flor da pele e dava jeito termos espaço. Ao mesmo tempo que o tempo cresceu nas nossas vidas, escasseia nas nossas opções. Queremos andar devagar, mas temos pressa todos os dias. Vivemos numa espécie de presente entalado. No entretanto penso numa frase que ouvi esta semana: “com o sucesso do meu negócio não comprei iates, investi ainda mais”. Isto levou-me a pensar nas razões que nos levam ao negócio da restauração e da pastelaria. Não será obrigação, afinal opções não faltam. Decerto, não será porque não aprendemos a fazer outra coisa. Num tempo em que a formação se multiplica poderíamos sempre fazer outras escolhas. Será paixão? Acredito que sim. De outro modo, quem escolheria passar mais de 12 horas (ou ainda mais), a trabalhar consecutivamente tendo que assegurar ao mesmo tempo, a gestão e a execução? Num desgaste grande entre o fazer acontecer e o pensar fazer, quem está nestes negócios sabe como é preciso não parar. De grande proximidade com o público onde cada pormenor faz a diferença, é fundamental que cada um esteja sempre à frente do seu tempo. Para trás, muitas vezes, fica a família, o lazer, a descontração para olhar o horizonte sem ser a pensar no que ainda está por fazer. E quase sempre, do sucesso nasce a ideia para outro investimento. Nova correria, novo fôlego, novo entusiasmo pelos novos investimentos que quase parecem filhos. Vivemos as dores e as alegrias de cada um sem conseguir o distanciamento. Por isso, doí tanto tudo o que está a acontecer. Não custar é que seria estranho. Mas vamos acreditar, mais do que nunca, que tudo vai passar. Além do mais, convém não esquecer que o mais importante é perceber que estamos cá. Acordar todos os dias e perceber que estamos bem e que os nossos estão connosco. A tempestade há-de passar e havemos de sentir a Primavera como se tivéssemos nascido agora e não conhecêssemos o amarelo inocente das margaridas, o verde fresco dos rebentos das árvores, o desafiante vermelho das papoilas tingidas de sedução e o branco, o lindo branco dos novelinhos e dos cachos das glicínias selvagens. Havemos de cheirar a Primavera como se fosse a primeira vez. O mundo não vai ser o mesmo, mas nós também não e precisamos da mudança. Já não é uma escolha, é uma necessidade.

Havemos de cheirar a Primavera com toda a paixão do mundo.