Eu sei, estamos fechados em casa. Sim e vivemos uma grande crise sanitária. Também é verdade. Mas não consigo resistir ao cheiro dos folares. Aos folares que tenho ao pé de mim e aos que imagino na minha cabeça. Àqueles que os meus amigos me iriam dar. Saudades das minhas viagens, também por isso. Em cada folar um rosto amigo, por isso, impossível não sentir que os folares dos outros são também meus. De Trás-os-Montes aos Açores, sinto falta dos meus amigos. Talvez seja isso. Sei que se fosse a Alturas do Barroso e desse um salto a Boticas o meu amigo Albano me iria dar um folar cheio do bom fumeiro transmontano, prova de que o porco por aquele pedaço de terra preenche toda a gastronomia, até aquela que parece inusitada. Mas se fosse para a Beira Alta teria um bom Folar da Guarda, feito com azeite e aguardente, combinação obrigatória para pães doces feitos com o líquido sagrado proveniente das azeitonas. Tantas vezes recebi dos meus alunos esse pão doce tão luzidio por ser pincelado com azeite! Descendo mais na geografia, deixo-me encantar pelo Folar de Vouzela. É raro ir a este ponto perfeito na tríade de sítios maravilhosos da região Dão-Lafões sem trazer um folar. Os amigos de lá não deixam. Na dobra que une a massa de cima e a de baixo é posta manteiga e açúcar fazendo com o seu interior seja húmido e bem suculento. Um dos meus preferidos porque estando, mesmo entre a Beira Litoral e a Beira Alta, o Folar de Vouzela tem identidade própria. Corta-se em fatias perfeitas e é possível ver o miolo açucarado, a parte melhor. Se passarmos a Serra da Estrela damos de caras com o Bolo da Festa do Tortosendo. Também de azeite, não admite faca. Tem de ser “esmoucado”, o mesmo é dizer que deve-se arrancar pequenas farripas. Este costuma ser-me dado pelo meu amigo Marco que me disse que a melhor maneira de o comer é acompanhar com o queijo Picante da Beira Baixa ou Queimoso. Belíssima sugestão, digo eu que provei. Embora nunca tenha provado os sardões ou as bonequinhas de Portalegre, sempre tive uma curiosidade enorme por estes folares cuja história demoraria muito tempo a contar. Direi apenas que não é à toa que o sardão tem o ovo na boca… e depois chegamos ao Algarve, à terra de céu luminoso do meu amigo Paulo e temos o Folar de Olhão. Com aquele melaço todo a escorrer ninguém iria supor que aquele Bolo de Folhas ou do Tacho também é um folar. E a Massa Sovada que o amigo José Nunes me deu a provar naquela minha ida à Ilha de São Miguel? Fiquei horas a comer aquela massa doce tão simples. Comi pela fome que tinha na altura e pela que eu sabia ir ter quando já estivesse bem longe dos Açores. Ainda hoje, sinto o gosto na boca. 

E o meu? Aquele que é daqui, da minha terra. Nascido entre a Gândara e o Baixo Mondego e que beneficiou da utilização de muitos ovos numa massa aconchegada com leite e manteiga. A melhor recordação que tenho é a de quando a minha mãe cozia na sexta-feira santa e íamos todos a correr para o forno comê-lo ainda quente. Não falei do Minho, pois eu sei. É que naquele Portugal de influência atlântica, nos doces de Páscoa o folar passa despercebido. Lá é mais Pão-de-ló. E aí a história é outra e bem profunda…

#resistir sim, mas #resistir com o cheiro dos folares e com as boas recordações dos amigos.