Hoje precisei fechar o computador e ir para a fora de casa. Sorte a minha que vivo no campo e difícil é encontrar alguém com quem me cruze. Mesmo assim, não quis ir passear para o meio das margaridas, não. Fui para o meio do alecrim dar ordem ao que era um emaranhado de ramos metidos nos marmeleiros. No entrelaçar do alecrim com aqueles galhos repletos de folhas verdes ainda tenras, até parece que renasci. Na minha luta contra a força daqueles ramos teimosos, sentia o cheiro da erva pisada misturada com a terra molhada e o aroma intenso daquele alecrim que me deu cabo dos braços. Foi uma tarde em que não pensei em nada, a não ser em conseguir, até ao pôr-do-sol, dar um ar organizado àquele pedaço de jardim selvagem. Se gosto do alecrim e tenho o maior respeito por aquele arbusto rasteiro, tenho ainda mais pelos marmeleiros e pelo seu fruto. Se cru pouco préstimo tem pela adstringência que tem, já transformado em marmelada e geleia é doce imperdível. E, acreditem, adoro a sua flor. É um momento breve, aquele em que a flor do marmeleiro se mantém à vista de todos. A chuva, que gosta de ser insistente entre o Março e o Abril, rapidamente nos leva esta beleza e logo as pétalas são tapete que forram o chão ainda molhado. Acompanho todos os anos este momento breve. É a minha maneira de sentir que estou a sentir a Primavera e que não é à toa que o tempo voa. Voa para nos fazer ver coisas bonitas. Mas há mais uma razão para eu gostar tanto dos marmeleiros. É que descobri, recentemente, uma referência ao “The Portugal Quince” num dicionário de Botânica de 1728. Diz o autor britânico acerca da variedade “De Portugal” que, ainda que cozinhado com açúcar seja de paladar mais saboroso, comido cru “não ofende ninguém”. Numa página dedicada a várias variedades de marmelos, com orgulho, apercebi-me de que à cultivar “De Portugal” são dedicadas muitas linhas descrevendo o fruto e a forma de o consumir. Talvez por isso sejamos um país de tradição de marmelada onde algumas afamadas receitas são de boa memória. E não esquecer a geleia que, para além de boa, é tão terapêutica. Aliás, neste período em que tenho estado tanto por casa a geleia da minha mãe tem sido companhia saudável e saborosa, todas as manhãs.
Eu sei, era suposto falar de como me sinto neste período difícil e talvez comentar como o sector do turismo é o mais afectado. Mas a vida é feita por muito mais do que a pandemia, crise económica e dificuldades mundiais. Ou aceitamos isso ou vamos andar a bater no ceguinho evitando uma atitude diferente com a vida, esgotando a nossa energia a pensar nas dificuldades. Aliás, quero agora ter esse compromisso comigo própria. Deixar a vida fluir e não deixar que tudo isso me impeça de sentir o cheiro do alecrim, de ver as flores do marmeleiro. Até porque a chuva, que aparece repentina, dá mais cheiro às flores e mais cor ao céu.
