Esta noite sonhei com o cheiro a pão torrado. Senti o cheiro mesmo ali nos meus sonhos numa noite nada tranquila. É certo que se durante o dia recheamos os pensamentos com o sol, leituras, conversas e afins, a noite traz ao de cima os nossos maiores medos. Nem sabemos porquê, mas à noite ficamos indefesos. Depois do cheiro a pão torrado, levantei-me ainda com os olhos meio fechados e precisei ir abrir a janela e ver como estava o céu. Estava sol, que bom. Daí até à cozinha foi um passo rápido e apressado e lá fui eu fazer as torradas e o meu chá. Com imensos planos para o dia recusei voltar a pensar na noite. Ainda assim, volta e meia ficava com os olhos presos na janela. É domingo, não posso estar assim caramba! Inspiro-me nos meus amigos e lembro-me do ar forte da minha amiga Margarida Bessa Rego a olhar sempre de cima os problemas. Reagir é preciso, #resistir também. “Vá lá mulher, morde a vida” ouço a Margarida a dizer-me nos meus pensamentos. Ouço o Paulo com o ar calmo: “Sê positiva, por favor”. Enquanto tomo o pequeno almoço penso “cheiro a pão torrado?”. Não me lembro de alguma vez ter sonhado com um cheiro. E ainda mais a pão torrado. Se calhar Yuval Noah Harari tem razão, não fomos nós que domesticámos o trigo, foi ele que nos domesticou de tal forma que eu até sonho com o cheiro do pão. Uma coisa é certa, incrível como os cereais sobrevivem de forma predominante na nossa alimentação para além da derrocada de impérios e das conquistas dos povos. Ao contrário do que seria de esperar, os povos conquistados conseguiram sempre passar aos vencedores o seu fascínio pelos cereais e pelo pão em particular. Perceber isso é perceber a história da alimentação muito para além da procura dos mitos de origem dos alimentos ou das receitas. É procurar as razões que nos levaram a descobrir certos produtos como alimentos e como nos afeiçoámos a eles a ponto de corrermos meio mundo para os obter, de os sacralizar, de nos fazermos escravos deles. A história da alimentação é a história dos homens na sua humanidade: as migrações, as inovações, as manifestações culturais, a ligação umbilical com o lugar. E isso é fascinante. Há uns tempos o Paulo perguntou-me como ficaria a identidade da nossa cozinha depois deste momento de sobressalto. Não sei. Vivemos o tempo de forma demasiada densa para sabermos como tudo vai ficar depois disto. Mas não acredito que mudemos muitas vírgulas nas frases que constituem a cozinha do presente. A busca para dentro de nós próprios ainda não parou. O fascínio pelas cozinhas regionais ainda vai a meio, a simplicidade vs complexo é um processo em evolução. Precisamos esgotar o simples, saciar a fome pelas origens e perceber que o simples é tudo menos simples, mas muito complexo. Alguém se lembraria de a partir dos cereais criar o pão, os pães doces, os folares, as regueifas, as roscas, as açordas, as migas, os ensopados, as sopas secas, os cuscos, os carolos, os milhos, o xerém, as papas e as muitas receitas doces a partir da farinha de trigo e de milho? O regresso ao complexo nunca vai acontecer, o complexo já é a nossa matriz.

Tudo isto a propósito do cheiro a pão torrado… Delírios de uma tarde de domingo.