Não, o mundo não vai mudar. Não acredito nisso. Depois disto não vamos estar diferentes do que fomos na nossa vida. Acredito que iremos usar mais as novas tecnologias na nossa vida para fazer reuniões, compras, marcações, formações, etc, mas não iremos mudar a essência da proximidade. Erguemos barreiras para nos protegermos pois de repente temos medo que o outro seja um agente de infeção, mas não vamos deixar de querer estar próximo dos outros. Os humanos precisam da multidão, do grupo onde se sentem um no meio de tantos. Chama-se integração e é essa necessidade que faz com que tenhamos enchentes nos festejos das vitórias futebolísticas, nos festivais gastronómicos, nas festas populares, nas praias, nos centros comerciais no Natal. Está-nos no sangue ir para a confusão. Por isso, não vamos mudar assim tanto. Pouco percebo do que são previsões macroeconómicas e muito menos consigo fazer alguma análise ao que está a acontecer no mundo. Mas foi no meu primeiro ano de faculdade que aprendi que a economia é uma ciência humana. Íamos nós, receosos dos números, e o meu professor fez-nos perceber que a economia só pode acontecer porque há pessoas que a fazem acontecer. À conta desse pressuposto básico aprendi imenso sobre as relações de poder, de grupo, de integração e percebi que os movimentos sociais são mais fortes que o resto e arrastam os números. Uma coisa é um indivíduo, outra coisa é um grupo. Não sei se teremos uma mudança social assim tão grande como anunciam. Tivemos ciclos de peste, fome e guerra ao longo dos séculos e as pessoas, apesar de evoluírem nos comportamentos, não perderam a necessidade de agregação, de integração, de inclusão em movimentos globais. Podemos estar um pouco mais virtuais, mas mal nos seja concedida autorização iremos a correr para o meio das pessoas.  Talvez possamos evoluir para um quadro económico diferente, mas irão desaparecer as relações de poder a que estamos habituados? Deixaremos de ter uma economia global? É certo que as pessoas estão mais atentas aos mercados de proximidade, mas vamos poder abdicar de um estilo de vida tão orientado para o consumo numa compressão espaço/tempo? Talvez daqui a dois anos ao olharmos os títulos da imprensa possamos pensar que estávamos na pré-história da mudança ou então pensaremos apenas que o modelo em crise trouxe aceleração nalgumas mudanças que já eram previsíveis. Será que iremos voltar a ler jornais em papel? Será que vamos perder tempo a ir a uma cidade distante apenas para reunir quando tantas plataformas permitem o contato? Será que os produtores não vão ter grande parte da sua produção a ser vendida online em plataformas cada vez mais interativas com o público alvo? Talvez tudo o que está a acontecer precipite um conjunto de situações que iriam acontecer de forma gradual, mas não deixaremos de ser o que somos. Iremos querer a multidão nas nossas vidas. Iremos ler os jornais digitais, mas continuaremos a ir aos restaurantes que estão à pinha e não aos que estão vazios. Iremos fazer mais compras online, mas manteremos a nossa preferência pelas pastelarias que mantiveram a chama acesa no estômago dos clientes. Faremos reuniões à distância, mas iremos voltar a encher os estádios e os festivais gastronómicos. Os festivais de verão vão ser a partir e as praias vão ter todos, os que gostam de sol e areia e os que não. O consumo não vai desaparecer. Vamos é consumir coisas diferentes e de formas diferentes. Numa perspetiva de homem/cyborg onde a máquina (pc, smartwatch, smartphone) é uma espécie de apêndice ou impressão digital vamos ter necessidades diferentes, mas necessidades. E vamos continuar a comer o que comemos há 10000 anos. Por isso, tenhamos confiança.