Apesar de, ultimamente, apenas ver o mundo através da minha janela, gosto de pensar no imenso Portugal gastronómico que ainda me preenche a memória. Gosto de pensar nas minhas viagens que me deram a conhecer paisagens de cores atlânticas e mediterrânicas. A partir deles conheci gente valente que acredita que os frutos do seu trabalho são dignos de respeito por trazerem a marca da geografia. Gente que fala com sotaque e que traz na pele a origem da terra, o sol que bate forte no Verão e se some no Inverno, o frio que consome a alma e enregela as mãos. Gente que trata os seus animais como parte da família, que os chama pelo nome, que fala com as árvores esperando que elas pela idade que têm e pelo tempo que já viram passar sejam boas conselheiras. Gente que olha a montanha, o planalto, a planície, o mar, a terra, o sol e a lua como o seu lar. A casa onde se sente feliz a fazer aquilo desde sempre. Esse Portugal gastronómico tão habituado ao silêncio dos dias nos sítios longínquos tem agora um desafio grande, sobreviver a esta ausência de nós. Dos que lá iam e os admiravam e lhes compravam os frutos do seu trabalho. Íamos e queríamos as maçãs com sabor a verde ou a vermelho, os queijos mais ácidos ou mais picantes, aos figos frescos ou secos ainda à maneira antiga, o pão a saber simplesmente a pão, as broas densas e escuras, o vinho com sabor a romaria, os doces bons de mãos extremosas, o arroz daqui e dali mas sempre bom e carolino, o azeite cada um de seu lugar. Íamos e trazíamos connosco pedaços de terra e de céu daqueles lugares tão belos onde tudo parece ocupar o seu lugar. Tenho saudades desse Portugal onde cada produto equivalia a um rosto sorridente, uma palavra sempre de acolhimento. Tenho saudades das pessoas. Sentir o seu amor pelas ruas da sua aldeia e a saudade dos que estão longe. Sempre me aconchegou o seu ar tranquilo para além dos problemas, a forma modesta, humilde e construtiva como sempre olharam o futuro. Lá sempre senti um Portugal gastronómico que não se manifesta em lamentos berrantes ou gritos absurdos atirados ao ar. Nunca tiveram essa capacidade de chamar a atenção, não têm um grupo organizado por detrás que reivindique os seus direitos. Direitos de quem nasceu num Portugal distanciado dos lugares comuns de uma sociedade que esqueceu a alma gémea que vive na outra metade do país. Mas em pensamento chega-me um lamento surdo e em silêncio que eu não posso calar. Sabemos que este estado que vivemos não vai passar como um sopro, vai ser um longo respirar fundo. E cada pedaço do nosso Portugal vai precisar muito de todos. Vivemos o entusiasmo das medidas que nos vão apoiar, mas o miolo vai ter que ser feito por nós. Temos de estar atentos aos lamentos calados, aos olhos vazios, aos sorrisos forçados. Sabemos que se os negócios podem cair e nós podemos levantá-los de novo, mas se os nossos produtos desaparecem, desaparece uma parte de nós. Eles condensam toda a história, geografia e cultura dos sítios onde têm origem. Que tudo evolui já toda a gente sabe, que a tradição é uma linha no tempo que recebe acrescentos e reduções também sabemos, mas se chegámos a um consenso no sabor, no tempero, na quantidade, por favor, vamos salvaguardar os nossos produtos de território. E para isso é necessário continuar o consumo destes produtos. Não podemos deixar esmorecer quem lá longe se esforça. Enquanto estivermos ausentes, não podemos esquecer quem sempre nos recebeu bem.