Depois de um dia muito comprido, enfim a paz, a música no silêncio que o dia não tem. Respiro, enfim. Sinto que também Portugal respira após semanas de aflição. Depois daqueles dias longos à espera sabe-se lá de quê, conseguimos respirar. Queremos acreditar nos melhores cenários. Ficamos felizes pelo, sempre, português suave. É claro que não podemos embandeirar em arco e achar que está tudo passado. Mas podemos sorrir e viver esta Páscoa com alguma tranquilidade.
Uma das memórias que tenho bem presente destas semanas é do que eu sentia ao acordar. Logo que tomava consciência de mim, abria os olhos e tentava perceber o estado do meu corpo. Começou a ser um ritual pela pressão que vivíamos. Antes de tudo isto, nem sequer me recordo do acordar ser uma parte importante do meu dia. Normalmente, era o momento em que eu reclamava contra a rotina apressada. Acordar bem passou a ser motivo de alegria descansada. Par além de mim, todos os dias perguntava à família como se sentiam. Ninguém falava do que era sentir bem ou menos bem, mas todos entendiam a pergunta e davam a resposta necessária. Consciência de mim, consciência dos outros. Momentos que eram intervalos apressados passaram a ser protagonistas no meu dia. E eu falava aos meus alunos em aulas bastante mais demoradas do que seria de esperar, escrevia páginas deste diário e outras páginas, ouvia música nos tempos mortos, esgotava o físico para me cansar. Queria assim esgotar os meus dias sem ter tempo para pensar. Quando foi tempo de pensar, decidir, fazer valer as minhas escolhas olhando os outros à minha volta, voltei a falar, escrever, ouvir música, esgotar o físico para que a decisão não pesasse mais do que o tinha que pesar. Distância positiva do que me aborrecia e me incomodava. Só à noite ficava indefesa.
A vida gritava e eu deixava-a gritar. Sem perder a calma dei ouvidos àquilo em que sempre acreditei, nos momentos mais difíceis como nos mais belos sentir o grupo é a nossa maior defesa. Tão bom como o grupo acalmou o grito da vida, tornou tudo mais fácil. Percebemos como não estávamos sozinhos no sentir e na necessidade de resolver. A procura de soluções que começou em conversas caladas e, de repente, era assunto. A perda ainda é uma interrogação. Mas a conquista diária deixa-me feliz. É claro que sinto a falta do mar. Dos amigos, muita. Mas, entretanto, descobrimos imenso. “Da lassidão nasce a disponibilidade” citei A. Camus numa das páginas, é mesmo muito verdade. A força que nasceu e está disponível dentro de nós queima-nos até nos desorientar. Sei que sim. Ainda não sabemos sequer o que fazer com ela. Ainda é inútil, mas é um caminho. Assim como é um caminho o que esta situação ainda está a traçar nas nossas vidas. Mas, o agora é de sorriso tranquilo. A paixão que a vida tem por nós sorve-nos muito mais do que a paixão que temos pela vida. É tão evidente isso e só mostra como o maior é abrigo do mais pequeno. Elo a elo que se entrelaçam, vão traçando o esforço da sobrevivência, a descoberta das palavras e das ações. #resistir convosco, o eu e os outros no que eu ainda não conhecia.
