Enquanto o restaurante se mantém encerrado, cozinho em casa. É preciso cuidar dos mais pequenos. E vou cozinhando como forma de manter a lógica do que fiz e faço. Há trinta dias que escrevo aqui. Isso quer dizer que há trinta dias que estou em casa, a cuidar deles e a cumprir o que penso ser o melhor. Penso nisto, no que será o melhor. Vejo os restaurantes a seguir o caminho do takeaway e outros. Percebo que o tempo e as coisas vão mudar. Seremos mais dependentes do medo. Mais isolados. Mais de proximidade dos que nos estão perto. Penso nos pequenos negócios de rua que podem ter um regresso simples ao original lugar de segurança. E não sei. Não acredito no romantismo disto tudo porque sei que quem tem o poder da dimensão vencerá sempre aos pequenos que precisam de alimentar a mesa de casa e isso já é imenso. A restauração irá retomar o seu trabalho, seja em breve ou mais para a frente no tempo. As restrições serão, claramente, um entrave a que tudo regresse em tempo útil para muitos (talvez para mim) de forma a poder assegurar a lógica de financiamento necessário para todos renascerem. No meio disto, mudaremos hábitos. Percebo que a visão do futuro será determinante para o sucesso e sobrevivência. Percebo que, aqueles que viviam de um turismo de distância sofrerão um pouco mais antes da mobilidade global regressar. O “vá para fora cá dentro” regressará e os primeiros passos serão dados muito perto. Afinal, o medo afasta-nos. Mas nem tudo é mau nisso. Teremos oportunidade de valorizar aquilo que está ali, mesmo ao virar da esquina ou ao subir da serra. E por isso, nós na restauração precisaremos de nos adaptar. A isso. A esse cliente que vem para passar o tempo, o seu tempo, numa condição de procura de alegria. E de equilíbrio. Jogaremos isso com as necessidades de manter distância e claras regras de cuidado. Sabemos que isso será assim. Seremos todos um pouco mais distantes indo para mais perto. Viajando para mais perto. Nesta primeira fase fará sentido rever o modelo porque afinal, vivemos dessa nobre arte de alimentar. Ouvia recentemente o chefe/mestre Orlando Esteves que disse algo que me fez pensar na lógica do que se segue. A solidariedade não é só ajudar, é dar vida. E dar vida é alimentar. Dar alma. É sem dúvida o que vamos precisar nos tempos que se vão seguir a isto tudo. Porque estivemos longe do mundo mesmo que isso fosse o mais importante de tudo neste tempo. Porque, afinal e no final, saberemos que isso será o que não nos vamos esquecer, como eu, que escrevo aqui há trinta dias seguidos. Não esquecer é importante. Como será importante perceber que precisamos mudar para dar vida. E sobreviver.