João D’Eça Lima: A reabertura
“Obrigado por resistirem”. É isso mesmo, é isso que faz sentido e que dá sentido, é isso que nos mantém a acreditar que será possível ainda mais um dia. Só mais um dia.
“Obrigado por resistirem”. É isso mesmo, é isso que faz sentido e que dá sentido, é isso que nos mantém a acreditar que será possível ainda mais um dia. Só mais um dia.
Reabertura. Para muitos. Para outros, o começo da preparação. Para outros ainda o arrumar de uma vida. Tantas opções diferentes. Tantas decisões únicas. Para mim, este é o último dia que escrevo neste diário de quarentena.
Quase a fechar estes diários. Amanhã escrevo o último de sessenta e quatro pequenos pedaços de pensamento. Vou precisar do tempo que agora aqui passo para preparar tudo. A carta, a vida, o refazer.
É o arrumar das cadeiras. O arrastar das mesas. O som de tudo. O olhar para as mesas sem nada. Um lugar que decorado de uma esperança é tecido de incerteza. Não, melhor. De não certezas.
Estamos a chegar ao fim. Ao fim de um tempo. De um modo de fazer as coisas. De uma forma de estar. Parte disto ficará. Outra, vai diluir-se com o fim do medo.
Fazem hoje sessenta dias que escrevo aqui. Todos os dias. Tiro um pouco de tempo para estes textos que me ajudam a arrumar ideias. Começo a pensar em recomeçar e no que vai sendo feito.
Acabado de registar umas ideias para uma nova carta de Verão. Há quase um ano fazia a mesma coisa. Ainda me lembro que coloquei nas entradas uma coisa que fez sucesso pelo espanto e/ou delícia.
O que vamos procurar? A privacidade, a exclusividade, a ideia de segurança, aqueles sabores que agora, sabemos, que não podemos ter em casa.
A cozinha é feita de regras. O cerimonial pertence à sala. As regras de etiqueta sempre foram formas de segurança. A segurança da cozinha é diferente da da sala.
Há uns tempos refiz um conjunto de receitas históricas publicadas pela investigadora e amiga Guida Cândido, num total de 50 iguarias únicas e cozinhadas o mais perto do que poderia ser como tudo era feito no seu tempo.