Acabado de registar umas ideias para uma nova carta de Verão. Há quase um ano fazia a mesma coisa. Ainda me lembro que coloquei nas entradas uma coisa que fez sucesso pelo espanto e/ou delícia. As perninhas de rã. Ou coxas, como me relembravam alguns. Fritas, acompanhados de um molho de mostarda e limão. Havia sempre quem dizia que eu era louco por colocar uma coisa dessas na carta, ali, onde ninguém iria aceitar tal coisa. Foi o nosso top de vendas. Vinha de uma memória que tenho da Ericeira. Os percebes e as pernas de rã. Eram de lá. Não sei se o contei alguma vez. Quando era pequeno o meu pai levava-me a passear em terras saloias. A praia das Maçãs era paragem por causa de uma casa pequena que vendia o melhor pão do chouriço do mundo e na Ericeira, num restaurante que já nem me recordo onde ficava, havia um balcão corrido e lá serviam essas coisas. Essas coisas que para mim eram outras coisas. Eram o ritual de viagem e o prazer de estar. As perninhas de rã. Foi das primeiras coisas que decidi. Depois vieram os cogumelos com alheira de caça. Mas nem os cogumelos nem a alheira eram uns quaisquer. Andei a percorrer caminhos para encontrar produtores locais e sabia de uma pequena fábrica em Foz de Arouce que fazia (e faz) as melhores alheiras de caça que conheço ali na região. Agora que desenho ideias enquanto caminho, sem saber muito bem se chegarão a ganhar todas vida, penso nos desafio que superei e nas conquistas que fiz num cantinho que toda a gente dizia impossível. Agora acho que sou eu que digo a mim mesmo, muitas vezes, que será impossível. Mas não é. Como não era, servir ali aqueles cogumelos sempre frescos ou as perninhas de rã que vinham de Lisboa e chegavam sempre em caixas e caixas que saíam que nem pipocas. O que custa mais pensar neste momento é naquele tempo e naquelas forças que são precisas para recuperar e aguentar. Como foram no início. Nas primeiras semanas e nos primeiros dias de salas vazias e a pensar: não sei como isto vai ser. Mas depois, depois lá se foram enchendo. Lá foi tudo ganhando forma. As forças foram gastas, recuperadas e gastas e recuperadas. Dia após dia. Até conseguir. Agora é só a mesma coisa. Mais difícil porque não se sabem as regras. As certezas que bastava o produto ser bom, cozinhado bem e cada cliente ser tratado como único que as coisas se compunham, não chega. É preciso uma força extra que vem de enfrentar o incerto, o invisível e a dúvida. Mas no fim, sabemos que sempre foi assim. Vamos agora pensar nos bolinhas de arroz com perdiz pois o encanto e o espanto serão sempre lugares de salvação face ao incerto…