Fazem hoje sessenta dias que escrevo aqui. Todos os dias. Tiro um pouco de tempo para estes textos que me ajudam a arrumar ideias. Começo a pensar em recomeçar e no que vai sendo feito. A pressa é inimiga de tudo. Todos nós vamos movendo sem nos verem. Seja nas limpezas dos espaços, seja na preparação das salas, seja no afinar de pratos e ementas que precisam de ajuste a novos tempos e novos modos de estar e viver os restaurantes. Só me consigo lembrar das conversas com tanta gente que conheci desde que comecei a atravessar este mundo da cozinha. Não sou de cá. Vim cá parar. E há uns anos fiz uma viagem pelo país. De Montalegre a Vila Real de Santo António. De casa às costas fui registando terras, gentes e sabores. Conversas e principalmente sensações que cada lugar foi deixando gravado em mim. Fecho os olhos por instantes e vou até Tibães. A uma marmelada com nozes comprada num mercado local. Serviu de pequeno-almoço por uns dias. O pão, o queijo, a marmelada, o café de cafeteira. Essas coisas que contam outros tempos em que tudo era muito mais difícil do que este tempo por muito que este tempo seja difícil. Talvez seja mais único, mais duro, mais abrupto. Este tempo. E recomeçar, como todos agora temos que fazer, exige essa força esquecida das batalhas que se perdem mais do que se ganham. Andávamos era esquecidos disso. Porque tudo era disfarçado para parecer melhor. Agora é um tempo de regresso. A um tempo de luta, batalha, inesperado e incerto cansaço que virá. Poderá chegar aquele lugar cheio de gente e de encontros que todos desejamos. E poderá ser só o vazio a meio, a meio de tudo, até a meio da esperança completa, que nos vai consumir o tempo e as forças por mais um pouco. Não importa o que será. Será novo. É por isso que será importante rever os sabores que vamos servir. Tenho tanto batalhado nisto. Porque mais do que nunca a satisfação chega pela fuga simples e singela a esta realidade confinada em que nos metemos. E servir um sabor único, que pode ser tão simples como uma fatia de pão com marmelada de nozes e queijo de cabra amanteigado, pode criar aquela fuga, aquele instante, aquela salvação do correr absurdo dos dias fechados sobre si mesmos que dará razão a um futuro melhor para nós, na restauração. Que este seja o tempo para pensarmos todos nisto e não ir a correr abrir portas para dar só mais um dia de vida normal a todos nós, neste momento, em que precisamos de sonhar e sentir o impossível…