Quase a fechar estes diários. Amanhã escrevo o último de sessenta e quatro pequenos pedaços de pensamento. Vou precisar do tempo que agora aqui passo para preparar tudo. A carta, a vida, o refazer. E será preciso até este tempo. No ultimar de tudo sabemos que cada pedacinho conta. Cada momento. Por isso, voltarei, quem sabe, aqui, num outro contexto. Percebo quem amanhã abrirá portas. Percebo, quem, como eu, adiará esse momento um pouco mais. A verdade é que nenhum de nós sabe o que nos espera. Passo nas ruas e o que vejo é um novo amanhã. Mas todos já atravessámos novos amanhã. Agora é mesmo só fazer o melhor que se sabe e pode e esperar para que seja possível atravessar isto. Isto que foi um tempo único. Absurdo. Impossível. Incompreensível. A verdade é que dizia muitas vezes à equipa que foi preciso uma pandemia para parar o projecto que todos diziam impossível. Ainda me lembro de me dizerem que eu não ia aguentar muitos meses a fazer o caminho dos mercados e produtos, muitas vezes de viagem da Figueira da Foz a Coimbra e de Coimbra a Penela só para ir buscar tudo, escolhendo tudo. Vai quase fazer o primeiro ano e espero que nessa altura seja possível estar de portas abertas a fazer o que diziam ser impossível. Este é um tempo assim. Mais duro ainda. Cada um dos restaurantes tem agora que fazer só uma coisa. Pedir ajuda. Não custa porque não é uma ajuda de esforço. É uma ajuda de prazer. Pedir aos seus clientes, a quem tinha curiosidade, a quem desejava conhecer, que reserve uma mesa. E vá. Vá sem medo porque nós estamos mesmo a preparar tudo para minimizar os risco, aliás, como sempre o fizemos. Pedir que voltem. Que regressem. Não uma mas muitas vezes ao longo deste tempo em que tudo será muito difícil. As lutas de quem gere são travadas noutro nível. Mas sem clientes nenhuma luta valerá a pena. Por isso, fica o meu pedido. Reserve uma mesa. Vá. Desfrute do melhor que cada restaurante tem. Não importa qual é. Vá e ajude. Nesta fase não está a dar lucro ou a fazer mais do que isso. Está a ajudar a manter uma ideia, um negócio, um sonho. Vá. Vá a um restaurante. Só tem que fazer isso para que muitos possam continuar a dar o melhor que sabem por si. Para si. E para poderem continuar o sonho que um dia os fez abrir portas. Tal como o farão, amanhã…