O que vamos procurar? A privacidade, a exclusividade, a ideia de segurança, aqueles sabores que agora, sabemos, que não podemos ter em casa. E os lugares. Os lugares onde sabemos que tudo se torna único. Criar isto é complexo. Um desafio. E recordo um passeio há uns tempos. Corria uma tarde de sol e eu procurava receitas antigas. E foram os lagostins. De rio. Vendidos num cartucho de papel. Para comer à mão. Como se fosse a maior iguaria do mundo. E era. E são. Porque são coisas simples, tiradas dos lugares onde sabemos que só ali se podem comer. Só tudo ali faz sentido. Agora que estamos mais presos, que estivemos mais presos, sabemos ainda mais o valor disto. E os que nos visitam também. Os lagostins, cozinhados no tempo certo, como os camarões da costa, que tantas vezes servi no restaurante ou aqueles caranguejos, os percebes, as lapas, que trazia cedo, geralmente ao sábado, do mercado da Figueira da Foz, e servidos ali no meio da serra, onde me diziam tantas vezes que se conseguia provar o mar. Hoje sabemos mais do que nunca o valor de tudo isto. Porque hoje fomos privados desses momentos. Construir ou reconstruir o regresso só pode basear-se nisso. Não podemos acreditar que os que nos visitavam não mudaram como nós mudámos. Percebemos o valor de muitas coisas. Até das nossas pequenas conquistas e dos nosso erros que se tornaram maiores. Percebemos o valor da alegria que vestia as salas dos nossos restaurantes. Fomos e seremos sempre memória disso. Mesmo que tudo isto passe. E todos nós, de uma forma ou de outra, iremos agora fazer ainda mais estrada, mais quilómetros, mais encontros para procurar esses momentos que sabemos o valor agora que não os tivemos. O que será diferente? A forma como o fazemos. Seremos mais selectivos. Seremos mais cautelosos. Procuraremos mais a íntima experiência reveladora da tal alegria que nos faltou. Não mudará nada, a não ser isto. Esta cuidada e intensa vontade de viver. E um restaurante terá que acolher isso. Seja por servir o produto único, seja por receber quem visitar nessa viagem que fique na memória. Mas afinal, sempre foi assim. E deveria ser sempre assim…