Reabertura. Para muitos. Para outros, o começo da preparação. Para outros ainda o arrumar de uma vida. Tantas opções diferentes. Tantas decisões únicas. Para mim, este é o último dia que escrevo neste diário de quarentena. Foram dois meses a escrever todos os dias sobre o pensava, sentia, desenhava em pensamento, intuía. O meu obrigado pelo desafio. Porque foi também isso. Um desafio. Um cozinheiro não tem palavra. Muitas vezes. Fala com sabores. É essa a beleza do seu ofício. Mas durante estes dias foram as palavras aquilo que deu sabor aos dias. Por isso, o meu obrigado. Agora, é o futuro. Sem sabermos o que é isso ao certo. Por isso, não há decisões boas ou más, certas ou erradas. Eu que tenho um escritor favorito, Tolstoi, só me apetece citar: “Podemos, apenas dizer que um homem é mais vezes bom que mau, mais vezes inteligente que estúpido, mais vezes enérgico que apático, ou o contrário; mas classificar um homem, como sempre fazemos, de bom ou inteligente e um outro de mau ou estúpido é um erro. Também os rios, todos de água, são umas vezes mais estreitos, outros rápidos, outros largos ou calmos, transparentes ou frios, caudalosos ou tépidos. Ora, os homens são como os rios.” Assim são e serão também as nossas decisões no futuro e tudo o que iremos fazer para manter os nossos restaurantes a funcionar. Porque a vida é esse rio onde agora seguimos sem saber bem onde vamos desaguar. Uns no sucesso, outros no fim de um caminho, outros no mar. Não importa. Não importa mesmo nada porque estamos em águas nunca antes navegadas. Sabemos a luta, a dificuldade, o exagero deste tempo. Mas somos nós, ali, ao abrir a porta, ao colocar o lume a arder, que comandamos o sonho. Mesmo que seja só isso. A ilusão do sonho continuar. Mas não importa. Não importa mesmo. Dizem que os generais romanos em face de uma batalha que julgavam impossível de vencer desejavam aos soldados: sorte, sucesso e fortuna. Eu, pequeno cozinheiro de um restaurante perdido no meio de uma serra, do Espinhal, em Penela, desejo o mesmo. A todos/as os que vão enfrentar o futuro. E haver hipótese de termos futuro foi o nosso maior triunfo, que sejam capazes de nunca esquecer o sonho. Aquele que nos dá força, fome e vontade. Porque é isso que agora precisamos. Vida. E que bom será voltar a ver tudo isso acontecer…