Estamos a chegar ao fim. Ao fim de um tempo. De um modo de fazer as coisas. De uma forma de estar. Parte disto ficará. Outra, vai diluir-se com o fim do medo. Recordo a visita a um mosteiro, perdido no meio do monte em Sintra e resgato a imagem de um confessionário. De outros tempos surge esse momento de distância como se fosse salvação. Ficou. Depois de uma época passar. Nos restaurantes vamos iniciar uma nova forma de trabalhar. Quer o tempo que assim seja. Não de distância mas de renovação. Entretanto fomos tomando e enchendo o mercado de takeaways e comida em caixinhas. Sobrevivemos. Outros não o fizeram. Agora quem nos visitar espera muito mais do que aquilo que lhe chegava a casa. Cansado de soluções simples como pizzas e outras que tais, quer encontrar no restaurante algo de único. Algo que faça revitalizar a esperança. Que seja um escape destes tempos e dias de medo. Há um tempo que me recordo de uma pirâmide de profiteroles recheados com chantily e tangerina e cobertos com chocolate e ameixa seca que uma vez fiz a quatro mãos com uma senhora pasteleira. Ao chegar à mesa, o espanto. É daquelas coisas que ficam na memória. Ou o “mero” de muitos quilos que só a cabeça, mostrada na sala depois de assada no forno era um espectáculo digno das arábias. Desaprendemos este lugar de espanto mas este lugar de espanto será a nossa salvação. Nas coisas mais simples, tal como em todas as outras que teremos oportunidade de criar. Agora que estamos a regressar, pensemos em salvar o que resta. Se essa é a nossa urgência no negócio, é-o também na essência do que fazemos e somos enquanto restaurantes. Já passaram dois meses e continuo a acreditar no mesmo que acreditava antes de encerrar a porta. Quem vai a um restaurante espera um momento único, particular e delicioso. Hoje, mais do que nunca, tem que ser esse o caminho. E não há outra forma possível. Se todos temos que nos adaptar, ter a coragem de vender bifanas se isso for o que é preciso para aguentar o nosso barco a flutuar, então que sejam as melhores do mundo. Se tivermos que cozinhar lagostas de não sei onde a baixa temperatura, servidas com uma espuma de não sei quê, que seja a melhor do mundo. Porque desta vez, será tudo muito mais do que uma refeição. Ou mais uma refeição. É um regresso. Um reencontro. E quem nos visita espera a alegria em cada um dos momentos vindouros como água depois de uma imensa travessia num deserto de ausência. Que estejamos à altura disto, de tão preocupados que estamos com a limpeza…