A arquitectura de um futuro próximo desenha-se. Falam os criadores de uma cozinha dita “alta” e os que defendem tudo o resto. Falam da necessidade de todas existirem. A das experiências às de memória. Todos procuramos encontrar uma resposta e uma necessidade para continuar a existir. Percebemos que o mercado mudou. Percebemos que a realidade de hoje, ainda em suspenso, não será aquela que vamos encontrar em nenhum lado. A razão é simples. Temos que pensar o futuro e só conseguimos perceber a morosidade de tudo isto. O turismo internacional e a mobilidade serão retomadas lentamente. Por isso, o cliente no futuro próximo será aquele que habita os mesmos espaços do que nós. E não podemos oferecer o mesmo do que ao outro que vinha para descobrir. Seja a experiência, seja a memória. E depois, depois há algo novo. A casa. Teremos que considerar essa hipótese. Emergente do mercado do medo e da necessidade de protecção, sabemos que as reuniões serão mais familiares e como tal, em casa. No espaço, no restaurante, teremos que encontrar soluções de distanciamento. Reduzir capacidade é certamente reduzir possibilidade e recursos que nos permitem sobreviver. Certamente o número de lugares será refeito. Certamente a distância será criada. Certamente não poderemos servir como o fazíamos anteriormente até tudo encontrar um lugar mais normalizado socialmente. Temos que pensar, em conjunto e isso faz muita falta. Devíamos, porque somos agentes, pensar e propor ou seremos só informados de como vai ser. Como vão decidir. No terreno sabemos como ninguém das coisas do dia a dia. E das diferentes realidades. Seremos, se não nos organizarmos, atropelados por regras e condições que tornam o negócio por detrás da cozinha, impossível. Penso nisto, sem saber se vou conseguir sobreviver. Há dias e dias que penso. Como me adaptar. Como resolver. Como refazer. E sinto que falta uma ideia comum. Porque quem visita um restaurante ou vários sentirá muito mais segurança se as normas de cuidado forem similares ou o mais similares possível entre todos. A confiança de quem nos visitará resultará disso. Seja num restaurante de luxo, seja no dia a dia e na cozinha de conforto e alimentação. Enquanto não percebermos isto estamos a perder tempo. E mais do que isso, estaremos a perder a oportunidade de salvarmos mais alguns de nós num futuro que começa a aparecer como nova realidade.
