Acho que todos sentimos isso. A saudade. Mesmo aqueles que continuam a cozinhar para outros levarem. A saudade da agitação dos dias. Das conversas trocadas. Dos aromas e dos sabores. Das palavras ditas a correr. Do preparar tudo para ver os primeiros clientes chegarem. Aquele momento de abrir da porta que se torna um ritual. E do fechar, do breve e sempre sentido: vá, até amanhã. São momentos que ficam quase como se fossem definição de nós. Dos espaços, fica aquele olhar que às vezes ficava preso num detalhe. Com a ideia de melhorar. Seria preciso arranjar, estava sempre a saltar. Ou coisa parecida. Sentimos essa falta do que faz um restaurante. Cada um. As recomendações repetidas. Cuidado com explicar isto e aquilo. E depois, aquelas coisas boas. A memória viaja para uma menina que um dia entrou a pedir uma garrafa de água. Ouvi, saí da cozinha e fui levar um rebuçado. Voltou com o pai e disse que queriam jantar. E assim foi. Há pouco tempo, pouco tempo antes disto tudo, passado quase um ano desse jantar, voltaram lá. Um breve café e uma frase sincera: fico feliz de ainda estarem por aqui. Nós também estávamos. Era sinal que, pensávamos nós, tínhamos atravessado o pior: o inverno. Afinal, foi a primavera que nos trouxe o teste. Este teste tão duro e imprevisto. É que nisto tudo, impera mesmo o imprevisto. Podíamos ter pensado num tempo de transição com menos clientes, em dias fechados devido a obras. Mas isto, isto nunca. É por isso que a saudade é maior. Porque fomos arrancados de um lugar. Sem hipótese de qualquer acção. De fazer alguma coisa. E a fazer, fosse o que fosse, seria pouco. É por isso, que feitos de fogo e palavras, sentimos esse vazio e essa urgência de luta que nos impele a não baixar os braços. Afinal, no final, o que conta mesmo é o que se viveu, dia a dia, em cada restaurante. E que não se esquece. Todos os dias.
