Quando decidi fechar e o comuniquei à equipa, sabia que estava a antecipar o que iria chegar. Não me arrependo. Mas que foi e é difícil cada dia, cada hora, cada momento, é. Muito. Cada dia que passa sei que será mais duro regressar. E que regresso? Aquele que agora nos querem impingir como verdade? Ainda no meio do turbilhão? A tal “convivência social com o vírus”? A resposta é não. Não será assim. Será preciso reformular muitos procedimentos, a essência e os processos. E não. Não se compromete a saúde de quem nos visita e de quem trabalha só porque não se pode esperar mais uma semana ou duas. É óbvio que uma vacina demora muito mais do que será possível sobreviver. Mas pelo menos um tratamento. Ou uma mudança efectiva. Ou um sistema de regras claras e óbvias para todos. É simples, assim não. Assim seremos todos cobaias de um sistema que nos quer activos sem cuidar de nós. Seremos cúmplices na desgraça. E se há agentes em que as pessoas tem uma cega confiança é nos cozinheiros e em quem os serve, nos empregados de mesa. Essa confiança emana da certeza que não lhes faremos mal. Sem essa confiança, o sistema de restauração não funciona. É parte disso que falta. Mais quando sabemos que a proximidade é também um elemento fundamental. Pensar a segurança nunca foi tão urgente e determinante. E não é só para os clientes. É para nós. Nós que todos os dias lá estamos, num espaço que fazemos nosso de uma forma tão própria. Este será o tempo e a emergência de colocar tudo no lugar certo. Desde a presença à determinação, desde os momentos em que se pode partilhar os espaços e aqueles que exigem recato. Pode parecer estranho mas é pensas na viabilidade económica do restaurante numa dimensão diferente: a da confiança do consumidor, numa perspectiva personalizada para recuperação da ausência de medo. Começará por coisas pequenas. Por gestos e modos. Por organização da sala. Por algo que só associamos ao fast food mas que tão bem serve neste momento: a individualização da higiene. A personalização da utilização. Isto reveste o modelo a que estamos habituados de uma nova realidade. A do cuidar. Muito associado a outros ramos e processos de restauração colectiva. Teremos que ir aprender. Será essa aprendizagem que nos vai salvar. E salvando-nos salvará quem nos visita e o nosso sonho de abrirmos os restaurantes…