Quando chegava o tempo das favas era tão bom. Ou das cerejas que eram oferecidas em cones de papel à antiga como se fossem castanhas. E as conversas, feitas em torno das melhores. As melhores eram sempre de outro lado mesmo que aquelas fossem muito boas. E depois, os nomes. Dos lugares e das coisas. Das pessoas e dos modos. Um restaurante como o que tinha e ali lá está, era feito disso. Das viagens únicas para produtos que ficavam na memória. Havia mesmo quem dissesse: aceita pá, que da próxima vez que cá vieres pode não haver. Era assim com as ostras ou o lingueirão. Era assim com tanta coisa que já perdi a memória. Sempre foi assim que achei que devia ser um restaurante e como tal foi assim que criei uma ideia do que seria aquele que eu tivesse. Que cada coisa tivesse um sentido. No seu tempo, dentro das possibilidades, o melhor que se podia ter. A alma e força do que um espaço é reside nisso. No ser feito de instantes. Hoje preciso disso para me salvar os pensamentos. Li, recentemente, que os projectos recentes são os que mais tendem a fechar em tempo de crise pois as possibilidades são menores. É verdade. É uma grande verdade. As dificuldades, também o são. Porque não há almofada para resistir. Porque a aposta foi feita toda para fazer a diferença ou ganhar sustentabilidade. Na forma, no modo, no produto. Para ganhar um espaço no meio de outros. Por isso, talvez por isso sobre em esperança o que falta em recursos. É esse o pensamento neste momento, dia a após dia, refazendo cada ideia pois um passo em falso agora determina tudo. Estranhamente. Novamente. A ideia inicial que fomos construindo, cada um com a sua identidade, será renovado. Não concordo com a ideia de uma mutação abrupta. Penso que será preciso, sim, renovar. Renovar não quer dizer refazer ou inventar. Quer dizer, fazer novamente. E saber isso é muito importante. Porque o desvio do objectivo e da razão fundamental matará o que resta da esperança e precisamos dela mais do que nunca. Renovar. Aquela força inicial, aquela alegria, aquela vontade, aquela procura pelo melhor, aquela fúria de vencer. Renovar. Percebemos então, que aqueles que ainda não saíram dessa força podem não ter os recursos e a forma mas têm o sangue ainda quente que não pode deixar de ser assim. Para não desistir. Para resistir. Para continuar. Essa é a diferença. Que seja a verdade que nos mantém vivos, também…