Não. A alta cozinha ou o que quiserem chamar, não pode morrer. Eu sei, contra mim falo que escolhi o meu caminho longe dessa aventura mesmo que tendo aprendido as suas técnicas. Fui pelo caminho da arqueologia gastronómica. Alguém que tem que aventurar por lá. Talvez a deformação académica tenha muito que dizer nessa minha escolha. Mas repito: a alta cozinha não pode morrer. Nem mudar. Se mudar será para ainda mais criatividade e exigência. E maior complexidade e rigor de exigência e qualidade no produto. O que precisa é centrar-se nisso tudo mas no que é produzido por cá. Tenho pensado que sabendo como estou, nas dificuldades imensas de sobreviver, não sei como estará que me fornece para além das conversas que vou mantendo de alento e esperança. A alta cozinha tem esse mérito. Da exigência e da criatividade. De inspirar essa procura em todos nós. São poucos (e ainda bem) os que a conseguem manter para o seu público, também ele, pouco e de poder de compra elevado. Nós, mortais, sabemos disso. Mas olhamos para isso, de tempos a tempos, para ler novas ideias e perceber que é a exigência a essência a perseguir. Sem isso, perdemos a noção do agora. Desse lugar onde, por terem recursos para além dos que nós temos, podem fazer mais. É por isso que a alta cozinha tem que se saber salvar. E pode. Penso nisto, porque preciso pensar que essa exigência e esse rigor, assim como esse elemento criativo, vão permitir a todos encontrar um rumo. Não é a cozinha típica portuguesa que essa já sobreviveu a muito mais do que isto. É a forma como olhamos para a cozinha e para o serviço que agora, mais do que nunca, precisa desse modelo de severa ritualização dos processos. Sejam eles de confecção. Sejam eles, e agora mais do que nunca, de automatização de procedimentos. É por isso que a alta cozinha precisa continuar a ser: alta cozinha.