Reformular, redesenhar, refazer, reinventar. E nós, que fazemos uma cozinha típica de base ancestral como o podemos fazer. Percebemos o que nos espera. A dimensão de redução de lugares, a urgência de uma reabertura que não nos salvará mas que é necessária para sobreviver. Percebemos que alguma coisa será precisa. A proximidade das conversas tenderá a ser ocupada pelas delícias degustadas. Sabemos que a realidade do correr dos dias será outra. Mas afinal, porque se chama agora pela cozinha de conforto? Porque precisamos disso. Talvez, mais do que nunca. Do reencontro e da partilha. Do refazer dos laços e dos sabores. Das memória e da conversa. Mas a cozinha típica portuguesa sempre foi feita disto. Sempre esteve presente nessa dimensão. Sempre colocou a mesa como centro e os sabores como lugar de partida para tudo o resto. Não é agora que regressa. Sempre esteve lá. Sempre nos ensinou e serviu para isso. Só não nos dávamos ao trabalho de o ver porque muitas vezes nos achámos mais importantes do que memória em si. Agora é tempo de atravessar esse lugar. Para muitos, sempre o foi. Para outros é um regresso. Os restaurantes serão sempre salvados por isso, se o quiserem e quando o procuram. É por isso que não acredito que vamos mudar. Nenhum de nós. Não seremos melhores nem mais justos. Não seremos nada mais do que já éramos. Vamos só continuar. Ou não. A fazer melhor, sim. Mas isso, no fundo, era o que procurávamos todos os dias. Fazer melhor. Talvez, o baú das receitas, que sempre lá esteve, ganhe agora mais umas visitas. Temos o tempo necessário para voltar aos livros. A procurar novas formas de refazer o velho, o antigo, ou simplesmente para rever o que já esquecemos. Esse tempo, este tempo, é urgente para nos fazermos renascer depois. Seja no que já fazíamos, seja para fazer tudo de novo. No que importa, no que verdadeiramente importa, não é chamar pela cozinha típica como santidade de salvação. Ela não nos ouve. Somos nós que temos que a ouvir. Ou quem não o fez, de a entender como nunca. A verdade é que agora, quando falamos em aproveitamento, percebemos melhor. Em sustentabilidade, percebemos melhor. Nós estamos na história da cozinha. E seremos nós a passar essas memórias a outros, como as histórias que nos contavam da sardinha para doze filhos. Afinal, agora estamos nós no meio desses dias que não chegam a metade da violência e dureza de outros tempos porque, ainda temos um pouco mais menos sendo muito menos do que tínhamos há um ou dois meses. Agora, percebemos melhor. E isso, para um cozinheiro, é a alma. Perceber a razão. Sentir a essência, definir o rumo pela experiência. Afinal, é isso que nos deixaram. E será isso que nos fará ser melhores no futuro que se avizinha urgente…