Voltamos sempre ao lugar onde fomos felizes. Ou àqueles que acrescentaram valor à nossa vida. Será essa a realidade que vamos procurar no futuro. Por um lado, sabemos, nos restaurantes, que somos porto seguro para alguns clientes. Aqueles que são, até um pouco mais, do que isso. Fomos nos habituando às conversas e a várias visitas. Aos destaques e às críticas. Às preferências e aos detalhes. Sabemos que esses voltarão. Porque se volta ao lugar. Ao que se tornou um lugar, mais, na vida de cada um. Saber isto faz de cada restaurante uma reserva de bem-estar e de bom senso e bom gosto. Perder isso será perder a razão de ser de cada um. É por isso que o desafio de adaptação é tão complexo. É por isso que se fala em lugares de valor. Não será dado mais valor ou mais ajuda do que aquela que teremos que lutar por nós mesmos. Perceber isso é o primeiro passo para definir um caminho. Continuar ou desistir. Não há nisto mal nenhum. Pensava ontem, depois de procurar tábuas de salvação, nesta coisa de ser pequeno e recente. Imagino a dificuldade de todos. Imagino ainda a maior dificuldade de quem cresceu e tanto apostou para melhorar num momento que parecia ser e continuar nesse sentido. Mas agora, no meio disto, sabemos que estamos sozinhos. E isso é importante. Tão importante como esperar ajuda. Mas não haverá ajuda. E saber isso é saber que ou se arregaça as mangas e se combate o furação ou se arruma as botas para lutar mais tarde. Qualquer uma das decisões é de uma dignidade imensa. Porque ninguém está nos nosso lugar e ninguém saberá, para além de nós, o que fazer. Ninguém dará valor mais do que aquele bom momento, aquela boa refeição, aquele lugar que se foi e continuará a ser ou se foi e se deixou de ser. É por isso que é preciso uma coisa. Entrar no restaurante. Puxar uma cadeira no lugar do cliente e parar um pouco para nos sentarmos. Em silêncio. Absoluto. Olhar em volta. Chorar se for preciso. Dar um grito, se for preciso. Bater com os punhos numa mesa, se for isso que é preciso. E depois, nesse silêncio, dizer: seja o que for que se faz que seja com a alma e força com que todos os dias alguém foi feliz no exacto lugar onde estamos. E não esquecer, nunca, que seja para continuar ou não, aquilo que se criou não será esquecido por muitos que ali estiveram. Isso, só isso, dará a paz necessária para a luta que se adivinhará logo que nos levantarmos…