Antes da liberdade. No dia antes, uns dias antes, da liberdade, saberiam aqueles que a não tinham o que fazer quando a tivessem? E nós, apanhado nisto, no meio de um turismo e de um bem-estar em crescendo? Interrompido bruscamente, saberemos retomar os dias, os hábitos, os gestos, os movimentos, o sabores? Há uma diferença. Não era suposto. Não era previsto. Nada indicava isto. Fomos apanhados de surpresa. Mas a liberdade ou a sua ausência são mesmo assim. Nunca se podem ter como garantidas. E os restauradores, nós, cozinheiros e gente dos restaurantes, sabemos que é na liberdade que reside a beleza do que fazemos. Na nossa, de criar, na dos clientes, de nos visitar ou não. Foi isso que se alterou. É essa a principal mudança. Perceber que estamos num lugar novo. Onde é a liberdade o perigo. E como o podemos contornar para continuar a viver. A sobreviver. Somos de um engenho imenso. Não pode ser desenrasque, porque, agora tudo o que não é ponderado é perigoso. Teremos que inverter o pensamento. Planear, preparar, antecipar, ter preocupação com os nossos e com os outros. Afinal, é isso mesmo a liberdade. Esse respeito. O não pensar no eu, mas no nós. Nos que nos visitam como nos nossos, na equipa, nas famílias da nossa equipa e nas famílias dos que só passam pelo nosso espaço. É a tal coisa da responsabilidade. Afinal, sem ordem, sem regras, não será possível nada disto. O Estado, essa máquina imensa de criar condições, deixa à sorte o que não pode ser deixado. A implementação concreta e definida de procedimentos iguais para todos. Só assim haveria equidade. E cuidado. Sabemos que isso não irá acontecer. E sabemos que o comportamento dos outros também será assim. Não uniforme. Muitas vezes desrespeitando a liberdade dos outros. Agora, com custos. Grande demais, por vezes. Um restaurante é um lugar de pessoas. De gente. De conversas e risos, de abraços e de encontros. É um lugar de vida. Nunca como agora a alegria e a liberdade, a nossa, quando reabrirmos será tão importante para trazer uma nova normalidade a essa liberdade condicionada pelos novos comportamentos que vamos ter que ter todos. Porque será essa forma de estar que só quem vive dos sabores, dos sons, dos sorrisos e da vida, como nós, na restauração, saberá usar para nos salvar do que faltará em cada instante. No dia antes da liberdade ninguém sabia isto. Nós também não…
