De tanta coisa a chegar. As medidas. As seguranças. As questões de possibilidade ou não de reabrir. Toldam-se os dedos de onde corre a esperança. Fecham-se as mãos. Não se sabe. Sabe-se que todos tentam, à sua maneira, encontrar uma forma. Todos tão diferentes de nós. Nós, tão diferentes, de cada um dos outros. Afinal, era essa a riqueza da restauração. A diferença. E chega aquilo que importa e pouco se fala agora. A cozinha. Os sabores. O que servir e como o fazer. Sabemos que nos pedem para evitar a partilha. Cada vezes seremos mais casas em nós mesmos. Isolados, para segurança e sobrevivência. É simples, o egoísmo salva. Neste caso, sem ser o egocentrismo. É um ego, em si mesmo. Cercado pelo medo ou pela ignorância. Mas cercado. A cozinha, essa, permanece lá. Um dia alguém disse que eu era uma espécie de arqueólogo da gastronomia portuguesa. Peguei nesse conceito e abracei a aventura de um restaurante. Essa cozinha, feita antes da escrita, feita da memória de família, fosse ela popular ou senhorial trazia um recado. Sobrevive. É curioso como tal facto tem agora um significado único. Sobrevive. Não se deixam morrer sabores de outros. De outros que nos antecederam. E de outros tempos, agora, tão iguais aos nossos. E quanto mais procuro nesses registos de memória e de lugares, mais encontro uma resposta para estes tempos. Cada um, singular. Singular. De simples e linear. De único. De pessoal. Afastamos a proximidade. Fechamos o círculo. Percebemos que o que nos pode salvar são duas coisas. A reserva de exclusividade e personalização. Porque o meu medo não é igual ao do outro. Porque o sabor que gosto, não é igual ao do outro. Porque me sinto melhor numa sala pequena, com pouca gente do que no meio de uma multidão. A cozinha é assim também. Esta arqueologia dos sentidos e aromas faz com que possamos perceber o futuro. Cada um dos lugares, cada um dos momentos do futuro, serão um desafio ao impossível. Como é o esquecimento. Aquele que resgato em cada receita que refaço para servir. Temos que aprender com tudo isto. É no passado que está solução do futuro. Simples, clara, saborosa…