Chega o tempo das decisões. Cada dia, cada dia que passa, perdemos algo. E ganhamos algo. Quando comecei a escrever estes textos, pensava que isto tudo demoraria muito mais do que podíamos imaginar. E que nenhuma sociedade como a nossa resistiria muito tempo encerrada sobre si mesma, inviabilizando o modelo de capital/consumo em vigor. Era óbvio. É por isso que é tempo de começar a tomar decisões. Como as que se tomaram já. A primeira, a de fechar, foi a mais difícil mas, tomada antes de muitos, foi a que marcou o passo. Os passos seguintes. Quebrar o ciclo. E ao fazer isso sabia que, num restaurante, isso ou é mortal ou salva as forças para lutas futuras. Agora, a decisão é outra. Porque no meio se tomaram mais. A de não apostar no takeaway ou entregas pois a natureza do espaço e a essência do projecto não o permitem. Ninguém podia lá ir, lá, no meio da serra, longe de muito do que consideramos perto, seria perder. Perder mais do que se perdia assim. Sem nada. E quando falo de nada é mesmo nada. Nenhum cliente em quase quarenta e cinco dias seguidos. Só as despesas a correr. E o silêncio do lugar. Depois, depois seguem-se as restantes decisões. Primeiro perceber que ninguém sabe nada sobre o que fazer e como o fazer. Uns porque estão no centro da cidade acham que o melhor é isto ou aquilo. E que eles vão sobreviver e o resto não. Outros que pensam que os grandes conseguem o que os pequenos não e vice-versa. Depois, os absurdos das regras técnicas que aparecem atiradas ao ar como se fosse isso que funcionava em cada um e todos os espaços. Das distâncias de segurança a limpezas completas seis ou mais vezes ao dia em espaços com capacidades tão diferentes como a essência de cada projecto. Por isso, a primeira decisão é simples. Procurar o máximo de informação, limpando o inútil, percebendo a lógica, enquadrando o sentido. Tudo com uma premissa. É preciso minimizar o risco. E que é ridículo afirmar que um lugar é seguro. Essa é a pior das afirmações. É exactamente o contrário que precisamos pensar. Nunca é seguro e cada acção que tiver que implementar é para minimizar essa insegurança. Por isso, é preciso olhar para o espaço e pedir conselhos. Olhar para o espaço e ver fluxos de pessoas. Pensar em diminuir a interação sem despersonalizar pois isso é a morte de um restaurante. Criar processos visíveis e outros que não o sendo criam lógicas de menor risco. Seja a forma como se dispõe a sala, seja na forma com os clientes pedem o que querem. Depois, depois é preciso ponderar. Ponderar se há viabilidade para tudo isto. Se é possível. Se é verdadeiramente possível. Essa é a decisão mais complexa. Varia em função da esperança de ter quem visite (e sendo optimista até acredito que sim) mas que suporte a mudança. Tornar a lutar com as forças que se guardaram para refazer. Há um tempo, escrevi renovar. É mesmo, fazer de novo. Tudo. Toda a batalha de tornar possível. Mas isso se tornou um hábito. Diziam, não vás para ali, no meio da serra, do nada, ninguém lá vai. Não vais conseguir, é muito difícil. E mais mil coisas a dizer que não, que não era possível chegar onde chegámos, em equipa, no último e primeiro ano de vida do restaurante. Por isso, não é isso que torna a coisa possível ou não. É a lógica de funcionamento que se transforma. A tal, viabilidade. Por fim, a cozinha. Um restaurante vive tanto do que se cozinha e serve como da forma e de quem o sabe explicar e servir à mesa. É um equilíbrio único. Neste tempo, nestes tempos, isso será essencial. A razão, de manter, de sustentar um projecto, reside nisso. Mais agora. Muito mais agora. Que as medidas de distância, de pureza sanitária, de exagero útil do medo e do risco, podem tornar tudo tão asséptico e impessoal que a hospitalidade se transforma em funcionamento e não em lógica de acolhimento. Por isso, cada decisão, cada pensamento, vai nesse sentido. Reabrir, no tempo certo, na lógica que só a vontade de tornar as coisas viáveis pode e deve ter.
