Da decisão aos cenários. Dos cenários às razões. Das razões às necessidades. Das necessidades à prática/acção. É assim que se confecciona o pensamento de um cozinheiro/restaurador que não deseja fazer as coisas em cima do joelho ou correr para algo que pode ser mais devastador do que parar o sonho. Então, as razões. Hoje, razões para não reabrir um restaurante. É a clarificação dessas razões que nos permite antecipar as mudanças necessárias. Sem pensar assim, errarei mais. Razões para não abrir. Simples. A primeira: o medo. O nosso medo, da equipa, meu, dos clientes. que pode impedir a sustentabilidade de tudo. Até uma lógica natural de serviço que se impõe num espaço onde o bem-estar e o bem acolher são motivos e motores principais para tudo. Se certamente haverá quem deseja e irá regressar aos restaurantes, também haverá uma grande quantidade de gente que não o fará. Sem conhecer a ideia do público, não sabemos se teremos sustentabilidade. Logo, esta é uma das razões para não abrir. Depois, vem a lógica do prejuízo da paragem que continua a acumular mas menos do que se tivermos que refazer stocks, acertar pagamentos em suspenso desde que se deixou de receber qualquer valor de caixa, reinvestir em adaptações e claro os novos e permanentes custos de limpeza e manutenção com uma certeza: nos preços não se poderá mexer muito pois os tempos que se seguem serão de crise. Ou seja, uma das razões mais válidas para não reabrir é essa forma simples de refazer e reinvestir sabendo, desta vez, que há um antes e um depois para assegurar, para além do corrente que agora aumentou de volume. E ainda, claro, aquela pior ideia de todas. Que poderemos ter que voltar a fechar se as coisas, como o próprio sistema de saúde avisa, se “complicarem”. Essa sabemos que será a morte anunciada de muitos restaurantes pois, se tudo reposto, com todas as dúvidas, será difícil, muito mais será perceber que depois de tudo isso feito, tudo parará novamente. Por último, a incerteza de um turismo em época que todos sabemos que sempre foi de compensação para outros momentos. A chamada época alta será limitada em forma e número e nunca terá os valores, nem o modelo de serviço, nem a forma que tinha até aqui. Sabemos e sentimos isso. E sabemos o custo que isso tem. E o mais importante. Saber que vamos correr riscos. Todos. Todos e a equipa. Principalmente cada elemento da equipa que precisamos de salvaguardar para poder continuar. Isso implica o tal distanciamento e um modelo de trabalho que alguns clientes podem não perceber e com isso iremos perder, ainda mais. Estas razões não são a um agouro de não reabertura. Pelo contrário. Permitem-me pensar em como me desviar disto. Como encontrar soluções. Se o pensar fazer. Se a opção for no sentido contrário, de não voltar a abrir portas, sei que são o fundamento da decisão. Mas importa colocar tudo em cima da mesa. Porque só assim podemos decidir com clareza. E o que falta, neste momento, é minimizar riscos e refazer projectos. Para isso é preciso algo em que assenta tudo isto: clareza e planeamento. Começo pela razão para não abrir a pensar no seu oposto. Tudo se torna mais claro, assim.
