E depois, no dia em que se relembra a luta pelo trabalho digno, penso na questão e nas razões simples para reabrir, na agora conhecida data proposta. Afinal, o trabalho é algo nobre e como tal, pensar em reabrir é um desejo também marcado pela saudade dos dias incansáveis e belos de labor num restaurante. As razões são claras. Reabrir já, torna-se uma necessidade a ponderar tal como o seu oposto. Primeiro: para manter a prática. Um restaurante vive de hábitos e processos repetidos que se quebraram abruptamente ou foram transferidos para os modelos de takeaway e afins. Reabrir já permite, ainda numa fase de procura moderada, reorganizar o modelo e refazer hábitos com o tempo necessário para afinar cada detalhe numa nova realidade de serviço, neste tempo novo. Depois, permite alguma facturação, mesmo havendo necessidade de algum investimento inicial que permite manter o espaço em funcionamento. Sabemos que as limitações imposta e as que iremos impor por consciência reduzem as margens já pequenas mas permitem uma entrada de ar fresco e de movimentação que será tão rápida como necessária para assegurar a continuidade futura. Ainda, a manutenção de uma cadeia de valor para os fornecedores e restantes elementos no sistema. Garante essa confiança que hoje todos precisamos de saber que ali, no regresso, está quem acredita que será possível regressar a um trabalho em modelos diferentes mas ajustados, mesmo que inicialmente, sem ganhos ou com a necessária dificuldade de cumprimento de transferência de valores entre todos. E portanto, o mais importante para uma razão de reabertura é a ligação entre todos os elementos. Manter o cliente, habituar ao regresso, mesmo que a medo, combatendo esse medo entre todos os agentes envolvidos no processo de vida de um restaurante é uma espécie de alimentar a esperança com uma força adicional. A de criar futuro. Esta relação com o cliente, com que nos visitava e visitará é também um sinal de renovação. Reabrir, agora, é uma injecção de possibilidade de futuro. Por fim, a saudade. A mais irracional das razões mas a mais forte também. A saudade de cozinhar, de procurar sabores, de os servir, da vida em torno de um lugar, do alimentar e dar alma, da correria e das horas. Será diferente. Mas é uma razão tão válida como qualquer outra. Reabrir é um acto de fé, neste momento. Não tem razões fundamentadas tão válidas porque o incerto é maior. Porque não sabemos o que se passará. Porque nunca estivemos neste lugar. Mas é um acto de força e resistência. Um grito contra a inércia. Uma loucura. E é de loucura que precisamos porque, na cozinha e na restauração é ela que nos faz sonhar. Sempre.
