Estava a lembrar-me de um prato. O veado estufado com castanhas. Era um prato diferente. Ainda me lembro da primeira vez que o cozinhei para teste. Tirei do tacho e provei. Rijo. Imensamente rijo depois de seis horas a estufar. Era de caça, um exemplar lindo pois a política da casa sempre foi comprar só o que era preciso para evitar a caça sem lógica que não fosse a da alimentação. Depois foi preciso esperar mais outras tantas horas. O lume fazia a maravilha de trabalhar a carne. Sem nada mais do que o tempo e os temperos. Depois, retirar e deixar arrefecer totalmente. Voltar a aquecer para servir. Com as castanhas e cogumelos frescos a acompanhar. A carne, desfazia-se com a colher. O sabor era único. Sabia, que ali, naquele prato estava a essência do restaurante que tinha feito nascer no meio da serra, longe de tudo, e que todos me diziam que era uma loucura e uma impossibilidade. Mas não foi. Por causa desse tempo. Não era o tempo de confecção. Era o tempo. O tempo de me levantar muito cedo e me meter ao caminho. Ir a Montemor o Velho buscar a carne escolhida entre outras. Era a conversa inicial com quem a cortava como ninguém e me dizia: esta é mesmo boa, mas vai dar-lhe luta. Depois, a escolha de todos os temperos nos mercados locais. Dos alhos, ao louro, das castanhas aos cogumelos. Era esse tempo. Esse imenso tempo. Tão cheio de tudo. Tão verdadeiro. Era esse tempo que chegava à mesa. Que tornava cada prato numa viagem. E não era feito uma vez para a fotografia. Era feito todos os dias, vezes sem conta. Hoje, não me apeteceu pensar em razões para abrir ou não abrir o restaurante. Hoje apeteceu-me recordar a essência do impossível. Porque só assim, só nesse lugar de memória e alma se encontra as forças para pensar o que fazer a seguir. Hoje, lembrei-me do veado com castanhas e cogumelos. A razão maior de ser do restaurante perdido no meio da serra.